quarta-feira, 12 de julho de 2017

MINISTRO DA FAZENDA

ndependentemente do governo, Meirelles vai seguir impondo o 'remédio amargo' na economia (Foto: ABr)

No último 7 de maio, dia do segundo turno da recente eleição presidencial na França, o jornal O Globo publicou um face a face entre a “a França de Macron” e “a França de Le Pen”, em dois boxs, como complemento para uma extensa matéria sobre o país que os franceses poderiam esperar a depender de quem se viabilizaria como o sucessor de François Hollande; a depender do vencedor, afinal, da “mais importante eleição de 2017”, palavras usadas pela revista britânica The Economist, este notório bastião do liberalismo econômico que declarou apoio, contra Le Pen, ao antigo ministro da Economia de Hollande, antigo funcionário do banco Rothschild, posto que “novidade política” à frente do movimento En Marche!.

Naquele dia, em O Globo, a síntese do programa de Le Pen estava no box à direita; a dos planos de Macron, no da esquerda, mas o projeto do “candidato da Europa” para a França, ali resumido, e a despeito das classificações que o apresentam como um suposto “liberalismo progressista”, era um sumário puramente liberal: “flexibilização” das leis trabalhistas, redução da seguridade social, diminuição de impostos para empresas e, a cereja do bolo, aumento do número de policiais nas ruas e do número de vagas no sistema prisional, ao passo que, como diria um chefe de Estado destes tempos, “colocar-se-á” en marche cortes drásticos dos gastos públicos, além do mais com eliminação de 120 mil cargos — em serviços públicos.

Apontado como remédio que a França inventou, como os vinhos tintos dos chateaux de Bourdeaux, para fazer esquecer a melancolia da chamada “velha política”, representada pelo Partido Socialista e Les Républicains, o “Liberalismo Progressista” de Macron, não obstante, é apenas um nome novo que parece saído do Collège de France para o conjunto de políticas de arrocho, ou de “austeridade”, que desde há tempos vários países da Europa vêm adotando para tentar remediar a crise, e por isso mesmo frequentemente alcunhadas, em seu conjunto, de “remédio amargo”.

Seja mais, seja menos ácido um programa de governo, ainda importa, na França e no resto do mundo democrático, que, para ser implementado, ele tenha saído vitorioso das urnas, a despeito da abstenção recorde nas últimas presidenciais francesas (56,6%), e ainda que a senhora Le Pen tenha feito o papel de um grande bode em le salon eleitoral: entre o liberalismo radical com xenofobia e o liberalismo radical sem xenofobia, os franceses, pelo menos aqueles que atenderam a convocatória às urnas, optaram por aquele com gostinho de guaraná.

E já que falamos em metáforas médicas e frutas tropicais, convém dizer que é sintoma de grave doença da Democracia brasileira, mais um, quando a presidência da República está prestes a cair no colo do filho de um homem que um dia almejou conquistá-la, mas pelo bom caminho do sufrágio universal, e que fracassou democraticamente lá pelo no meio deste caminho, sem nem sequer conseguir se cacifar a uma candidatura ao Palácio do Planalto.

Outro sintoma preocupante sobre a saúde da Democracia no Brasil é quando um ministro da Fazenda que, além capitanear agora mesmo a implementação de um programa econômico profundamente decisivo para a grande massa da população, mas que não foi submetido às urnas, requisita poderes da presidência da República, como o poder de decisão sobre o BNDES, para seguir no cargo em um eventual, provável e iminente governo Rodrigo Maia, que, por sua vez, segundo a crônica da imprensa mainstream, já ouve de banqueiros e investidores que manter Meirelles é fundamental, já discute entre as paredes de Brasília quem mais integrará seu futuro ministério e, em off, se diz injustiçado pelo governo de Michel Temer — este, por certo, tem a sensação de já ter visto esse filme, recente, sobre as manhas e artimanhas no seio da linha sucessória. Déjà-vu.Hugo Souza

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