sexta-feira, 8 de junho de 2018

ALEMANHA MEIO AMBIENTE

Alemanha enfrenta dilema de proteger meio ambiente ou indústria do motor

EFE /CLEMENS BILAN

O escândalo da fraude nas emissões de motores a diesel deixou o governo da Alemanha diante de uma incômoda dúvida: continuar se apresentando como símbolo da luta contra a mudança climática ou manter a proteção aos grandes exportadores de sua indústria automobilística.

Berlim pisa em ovos neste tema desde que veio à tona o escândalo protagonizado pela Volkswagen em 2015, para não perder sua liderança em questões ambientais e, ao mesmo tempo, não prejudicar o setor automotivo, que emprega 800 mil pessoas e é responsável por 24% das exportações alemãs.

Grupos ambientalistas e a oposição acusam de inação a grande coalizão de conservadores e social-democratas que está no governo desde 2013, e exigem medidas urgentes para reduzir as emissões dos veículos e que os fabricantes assumam seus custos.

"O comportamento do governo durante e depois do escândalo das emissões parece ser o de proteger a indústria automobilística de tudo o que signifique enfrentar responsabilidades financeiras", afirmou em um encontro com meios de comunicação internacionais Jens Hilgenberg, analista do coletivo ecologista BUND.

Em sua opinião - e na de muitos ecologistas -, o governo alemão poderia tomar decisões que teriam um claro efeito para reduzir a poluição, especialmente depois que a Comissão Europeia advertiu Berlim porque 80 cidades do país superam os limites de poluição atmosférica.

Entre estas opções, destaca-se a de estabelecer zonas de baixas emissões, áreas - principalmente urbanas - nas quais só poderiam circular os veículos menos contaminantes, os que obtivessem o denominado "distintivo azul", o que impediria milhões de automóveis a diesel de trafegar dentro destas áreas.

Mas tanto o atual ministro do Transporte, o conservador Andreas Scheuer, como a ministra de Meio Ambiente, a social-democrata Svenja Schulze, se mostraram contra esta proposta, alegando que afetaria negativamente muitos cidadãos e negócios.

"Não consigo entender", declarou Hilgenberg, que considera que os "distintivos azuis" para os veículos limpos seria uma medida "razoável", viável e uniforme em todo o país, além de facilitar a revisão do exterior.

O governo, por sua vez, se mostrou a favor de consertar os veículos a diesel afetados pelo escândalo da manipulação de emissões, embora não tenha detalhado como o faria.

A fraude em alguns carros pode ser consertada com uma atualização do software do motor, mas em outros seria necessária uma substituição de componentes, uma atuação que a própria chanceler alemã Angela Merkel classificou como "intensiva em custo".

Scheuer anunciou nesta semana que até o final do ano os fabricantes terão que realizar todas as atualizações de software, mas ainda não foi decidido o que fazer com os veículos que precisam de mudanças de hardware, evidenciando as reticências do governo alemão.

Schulze sugeriu recentemente um recall escalonado dos veículos que precisam de uma substituição de componentes para cumprir os limites de emissões, começando pelos das cidades mais poluídas.

Em meio a essas discussões, a Justiça interveio: em fevereiro o Tribunal Superior do Disputador Administrativo abriu a porta para que as cidades, por razões ambientais, proíbam a circulação dos veículos mais poluentes, uma sentença que o governo tentava evitar.

Hamburgo foi pioneira neste sentido e, a partir desta sexta-feira, proibirá todos os veículos a diesel que não cumprirem o padrão comunitário "Euro 6" de trafegar por duas ruas - um primeiro teste que Hilgenberg aplaude, embora chame de "simbólico".

Além disso, o governo alemão aprovou medidas a médio e longo prazos para reduzir a poluição, incluindo algumas que lhe trazem grandes gastos.

Neste ano, o governo vai dedicar 750 milhões de euros para promover o uso do ônibus público elétrico, digitalizar o tráfego e reduzir as emissões dos motores a diesel no transporte urbano através de um fundo para o qual o setor automotivo deve contribuir com 250 milhões de euros.EFE

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