Um mimo dos políticos de Brasília que chega ao fim.
Saudade dos aviõezinhos da FAB (e da filosofia)
O sonho alado acabou. No mínimo, aterrissou. (Reprodução/Internet)
Autoridades flagradas em viagens dionisíacas nas asas de aeronaves oficiais demoraram a dar a resposta devida: devolver o dinheiro e esclarecer de uma vez por todas as reais “condições de voo”. Um tinha ido a um casório praieiro e, de início, alegou tratar-se de compromisso oficial. Outro desviou a rota para desembarcar num certame futebolístico. Há também aquele do cachorrinho voador, com as aerobabás cruzando os ares de helicóptero, supostamente a bem do serviço público. Todos foram cobrados de forma vexatória pela opinião pública. Perceberam num supetão que, no Brasil pós-passeatas de junho, já não se decola assim tão fácil à custa do erário. Levaram “um susto imenso nas asas da Pan Air”, quer dizer, da FAB. Agora devem sentir saudades precoces (e doídas) da FAB.
O sonho alado acabou. No mínimo, aterrissou. Depois das pedestres e raivosas manifestações, as altas patentes aeronáuticas anunciaram que agora os voos oficiais serão, finalmente, públicos: os cidadãos terão o direito de saber quem vai na janelinha, quem vai no corredor, a que horas, com qual destino. Vai-se desmanchando no ar, isto é, no céu de brigadeiro, a esquadrilha da alegria. Vão-se embora os privilégios dispendiosos mal disfarçados de nebulosas “prerrogativas do cargo”, “transporte de representação” ou “interesse público”.
A partir de agora, o patrimonialismo a jato terá de se contentar com menos. Aviões com o Brasão da República não mais servirão assim tão fácil de copa e cozinha voadoras para políticos. O tempo fechou. O aeroporto está sem teto para quem gosta de comer sanduíche servido por oficiais da Força Aérea a 10 mil metros de altitude. Quanta tristeza. Quantas lembranças ficam para trás. Quanta gente vai cantar “a primeira Coca-Cola foi, me lembro bem agora, nas asas da Pan Air”, ou, melhor, da FAB.
Há, sem dúvida, um toque de nostalgia na canção que agora se encerra. Os privilegiados de hoje se lembrarão desse tempo dourado amanhã, em volta de uma mesa de bar, como na música dos mineiros:
“Em volta dessa mesa velhos e moços lembrando o que já foi”.
Mas há também uma piada de mau gosto. Uma piada desaforada. Há gente dizendo que a impaciência popular diante do esbanjamento de tanto luxo com dinheiro público é sintoma de moralismo de classe média. Essa é boa. Seria apenas uma piada, não fosse ela mesma um escárnio. Francamente: bem sabemos que o moralismo, qualquer moralismo, é um tipo de paixão baixa verdadeiramente insuportável, mas, convenhamos, é mil vezes menos insalubre conviver com uma pequena dose de moralismo de classe média do que aturar o cinismo de mandatários e burocratas que se refestelam a 900 quilômetros por hora no que não é deles, seja em nome de prazeres menores, seja em nome de uma causa grandiosa qualquer, como a revolução disso e a revolução daquilo. O cinismo dessa gente é um moralismo de sinal trocado e muito pior.
E aqui chegamos ao que no título deste artigo apareceu entre parênteses: a saudade da filosofia. Desde que se viu autorizada a deixar de tentar entender o mundo para simplesmente transformá-lo, uma tristonha vertente da Filosofia (se é que me é permitido o F maiúsculo), que não compreendeu direito o que significam os verbos entender e transformar, achou que poderia mercadejar com as ideias e com as massas para cumprir à força um fatalismo que, de resto, nem mesmo fatal chegou a ser. A resultante é notória. Passado um século e meio da conturbada Comuna de Paris, a antifilosofia degenerou – e depois degenerou ainda mais – até que conseguiu consumar seu feito: aquilo que era um vício desviante nos partidos da ordem se converteu na mola estruturante de muito partido de esquerda por aí (e por aqui). Instituto Millenium
O sonho alado acabou. No mínimo, aterrissou. (Reprodução/Internet)
Autoridades flagradas em viagens dionisíacas nas asas de aeronaves oficiais demoraram a dar a resposta devida: devolver o dinheiro e esclarecer de uma vez por todas as reais “condições de voo”. Um tinha ido a um casório praieiro e, de início, alegou tratar-se de compromisso oficial. Outro desviou a rota para desembarcar num certame futebolístico. Há também aquele do cachorrinho voador, com as aerobabás cruzando os ares de helicóptero, supostamente a bem do serviço público. Todos foram cobrados de forma vexatória pela opinião pública. Perceberam num supetão que, no Brasil pós-passeatas de junho, já não se decola assim tão fácil à custa do erário. Levaram “um susto imenso nas asas da Pan Air”, quer dizer, da FAB. Agora devem sentir saudades precoces (e doídas) da FAB.
O sonho alado acabou. No mínimo, aterrissou. Depois das pedestres e raivosas manifestações, as altas patentes aeronáuticas anunciaram que agora os voos oficiais serão, finalmente, públicos: os cidadãos terão o direito de saber quem vai na janelinha, quem vai no corredor, a que horas, com qual destino. Vai-se desmanchando no ar, isto é, no céu de brigadeiro, a esquadrilha da alegria. Vão-se embora os privilégios dispendiosos mal disfarçados de nebulosas “prerrogativas do cargo”, “transporte de representação” ou “interesse público”.
A partir de agora, o patrimonialismo a jato terá de se contentar com menos. Aviões com o Brasão da República não mais servirão assim tão fácil de copa e cozinha voadoras para políticos. O tempo fechou. O aeroporto está sem teto para quem gosta de comer sanduíche servido por oficiais da Força Aérea a 10 mil metros de altitude. Quanta tristeza. Quantas lembranças ficam para trás. Quanta gente vai cantar “a primeira Coca-Cola foi, me lembro bem agora, nas asas da Pan Air”, ou, melhor, da FAB.
Há, sem dúvida, um toque de nostalgia na canção que agora se encerra. Os privilegiados de hoje se lembrarão desse tempo dourado amanhã, em volta de uma mesa de bar, como na música dos mineiros:
“Em volta dessa mesa velhos e moços lembrando o que já foi”.
Mas há também uma piada de mau gosto. Uma piada desaforada. Há gente dizendo que a impaciência popular diante do esbanjamento de tanto luxo com dinheiro público é sintoma de moralismo de classe média. Essa é boa. Seria apenas uma piada, não fosse ela mesma um escárnio. Francamente: bem sabemos que o moralismo, qualquer moralismo, é um tipo de paixão baixa verdadeiramente insuportável, mas, convenhamos, é mil vezes menos insalubre conviver com uma pequena dose de moralismo de classe média do que aturar o cinismo de mandatários e burocratas que se refestelam a 900 quilômetros por hora no que não é deles, seja em nome de prazeres menores, seja em nome de uma causa grandiosa qualquer, como a revolução disso e a revolução daquilo. O cinismo dessa gente é um moralismo de sinal trocado e muito pior.
E aqui chegamos ao que no título deste artigo apareceu entre parênteses: a saudade da filosofia. Desde que se viu autorizada a deixar de tentar entender o mundo para simplesmente transformá-lo, uma tristonha vertente da Filosofia (se é que me é permitido o F maiúsculo), que não compreendeu direito o que significam os verbos entender e transformar, achou que poderia mercadejar com as ideias e com as massas para cumprir à força um fatalismo que, de resto, nem mesmo fatal chegou a ser. A resultante é notória. Passado um século e meio da conturbada Comuna de Paris, a antifilosofia degenerou – e depois degenerou ainda mais – até que conseguiu consumar seu feito: aquilo que era um vício desviante nos partidos da ordem se converteu na mola estruturante de muito partido de esquerda por aí (e por aqui). Instituto Millenium

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