As verdades sobre a possível divisão do Pará



Por Emanuelle Bezerra(Parte Final)

Tapajós por sua vez, ficaria com as minas de bauxita do Rio Norte (Oriximiná), de Juruti e a usina hidrelétrica de Belo Monte. Segundo a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, Altamira, região onde será instalada a usina, receberá cerca de R$ 3,2 bilhões em compensações e investimentos no desenvolvimento socioeconômico pela construção de Belo Monte.

Mas Carajás também herdaria os problemas sociais e ambientais que hoje são de responsabilidade do Pará, concentrando a maior quantidade de casos de violência no campo e trabalho escravo registrados na Região Norte. Foi lá que ocorreu o episódio que deu origem ao Ministério da Reforma Agrária, o Massacre de Eldorado do Carajás. Em 17 de abril de 1996, 19 sem terra foram mortos em confronto com a polícia a mando do governo do estado. Segundo legistas, a polícia tentou simular que as mortes teriam ocorrido por conflitos internos do MST, utilizando seus instrumentos de trabalho (foices e facões) contra as vítimas. Desde então, segundo levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT), 212 pessoas morreram em disputas por terra, a maioria na região de Carajás. Nos casos de trabalho escravo, a região também lidera: dos 70 casos que a CPT identificou no Pará em 2010, 58 aconteceram em municípios que formariam o novo estado.

O deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ), em entrevista exclusiva ao Opinião e Notícia, diz que há evidentes interesses econômicos na tripartição do Pará. Ele lembra que a riqueza mineral de Carajás reverte pouco para o estado e Tapajós, com sua biodiversidade e potencial hidrelétrico, é hoje um ativo econômico fundamental para o Pará. “Os defensores da divisão do Pará sempre trazem o exemplo de Tocantins, que, segundo eles, se desenvolveu muito. Só que com base no agronegócio, na pata do boi e no desmatamento, o que não pode ser o caminho das regiões do Pará que se quer desmembrar. Progresso é também preservação de florestas, exploração sustentável, manejo adequado, investimento local de verdade, Poder Público ativo, presente, regulador, que contenha a sanha dos interesses privados e das oligarquias predatórias. Como se vê tragicamente agora, licença para desmatar e licença para matar andam juntas, e isso é particularmente grave no Norte do país”, explica.

O deputado questiona ainda a pressa com que os autores do projeto querem realizar o plebiscito — até o fim do ano. “A votação na Câmara foi apressada e simbólica, e apenas nós ( o PSOL) nos manifestamos. Destacamos a necessidade de um debate mais detalhado e de se evitar a ilusão de que basta uma redivisão político-administrativa para que os problemas da população mais pobre, a que mais necessita do Poder Público, sejam resolvidos”, diz.

O PSTU divulgou uma nota contra a divisão do Pará. O partido considera os argumentos dados pelo governador Simão Jatene e os demais defensores do projeto um absurdo. “Não é o tamanho do estado o que determina o seu grau de desenvolvimento humano, social e a competência administrativa de seus gestores”. O documento diz ainda que o controle do estado está nas mãos de multinacionais, como a Vale e de “um punhado de latifundiários e mega-empresários que controlam não só as riquezas do nosso estado, mas o próprio estado através dos principais partidos como o PSDB, o PMDB e o PT”.

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