Brasil enviará 75 mil estudantes para o exterior


Harvard deve receber estudantes brasileiros pelo programa Ciência Sem Fronteiras

Com sua economia prosperando, sua moeda em níveis que fazem até os preços de Londres parecerem baratos, e sua política externa entre as mais ambiciosas do mundo, os brasileiros se acostumaram a viajar para o exterior para fazer turismo, negócios, compras e por motivos diplomáticos. Agora seus estudantes estão finalmente recebendo um incentivo para conhecer o resto do mundo, graças a um grande programa do governo, que tem como meta dar 75 mil bolsas de estudo nas principais universidades do planeta. Disponível apenas para brasileiros que estudem assuntos de importância estratégica nacional, como engenharia, o programa reflete “um esforço do governo para dar um salto de qualidade na formação de uma elite científica e tecnológica”, diz Aloizio Mercadante, ministro de Ciência e Tecnologia do país.

Essa é uma meta de longa data, não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina. Entre 2009 e 2010, o Brasil, uma nação de 200 milhões de habitantes, tinha menos de 9 mil estudantes nas universidades dos Estados Unidos; Já a China tinha 127 mil; a Índia, 100 mil; e a Coréia do Sul, 72 mil. Esse é um dos motivos por que mais de um terço da pesquisa e desenvolvimento do mundo acontece na Ásia, enquanto a América Latina é responsável por apenas 3% do setor. Por isso, os países da região trabalham para mandar seus melhores estudantes a universidades como Harvard, Stanford, Oxford e Sorbonne. O Equador anunciou, no mês passado, seu maior programa de bolsas de estudos da história, e espera mandar mais de mil estudantes para o exterior, enquanto a Colômbia enviará mais estudantes ao exterior em 2011, do que em todos os últimos 18 anos somados. O Chile está expandindo seu programa para oferecer 30 mil bolsas de estudos até 2018, e até mesmo El Salvador agora tem um programa de educação no exterior.

A iniciativa brasileira, batizada de Ciência Sem Fronteiras, envolve a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), que irá financiar 40 mil bolsas de estudo, e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq),que financiará 35 mil. O setor privado do país deve bancar outras 25 mil bolsas. “É um plano ambicioso”, diz Denise Neddermeyer, diretora de assuntos internacionais da CAPES. “Mas ele não pode ser alcançado sem que haja um esforço colaborativo internacional cada vez maior”.

Esse foi um dos principais motivos que levaram o presidente norte-americano Barack Obama a visitar o Brasil na última primavera. Ele e Dilma Rousseff concordaram em trabalhar de maneira mais próxima em assuntos vitais do setor de educação, intercâmbios estudantis e uma cooperação cada vez maior no setor de pesquisa e desenvolvimento, especialmente nos campos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. As universidades norte-americanas receberão metade dos estudantes do programa.

Os investimentos crescentes nas bolsas de estudo são possíveis porque os países latinoamericanos estão colhendo os frutos do boom das commodities – boa parte delas consumidas pelo apetite voraz da China por produtos que vão de petróleo e aço a grãos de soja. Ao mesmo tempo, suas economias conseguiram evitar o contágio do colapso econômico na Europa e nos Estados Unidos. Não é coincidência que o Brasil, o maior produtor de minério de ferro, grãos de soja, açúcar e carne bovina; e o Chile, maior exportador de cobre, recebam as maiores ofertas, e que o Paraguai e o Peru, que tiveram crescimentos de 15,3% e 8,8% no ano passado, estejam entre os novos investidores do estudo no exterior.

Especialistas apoiam o plano de bolsas de estudo, mas alertam que os governos devem tomar as medidas necessárias para colher todos os benefícios. Um obstáculo em potencial é a proficiência em língua estrangeira . Outro, é garantir que os estudantes voltem a seus países de origem para aplicar e compartilhar o conhecimento que adquiriram. E o tráfego de estudantes não pode ser de mão única: “Tudo isso deve fazer parte de um programa mais amplo, o que significa trazer estudantes estrangeiros e realizar um verdadeiro intercâmbio”, diz Geraldo Nunes, coordenador de acordos internacionais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. “No momento, as universidades brasileiras não têm os meios ou a infraestrutura para fazer isso”.

Isso gera outra discussão importante: a da melhoria da educação na América Latina. Estudantes em países como o Brasil continuam na parte de baixo dos rankings internacionais em matemática, ciência e testes de leitura; e suas universidades, ainda arraigadas na pedagogia arcaica da era colonial, produzem uma enormidade de graduandos em psicologia e pouquíssimos engenheiros. Essa realidade dificulta a transição das economias da América Latina de commodities para computadores, de soja para painéis solares. O Brasil, por exemplo fez grandes esforços em áreas como a engenharia aeroespacial, mas a região permanece muito atrás de tigres asiáticos como a Coréia do Sul.

Ainda assim, a nova tendência é um sinal bem vindo de que os governos latino americanos estão dando uma nova prioridade à educação – para, finalmente, “avançar de maneira sustentável rumo à inovação, competitividade e liderança em setores estratégicos”, diz Mercadante. Com os cofres tão cheios, não poderia haver momento melhor para isso.

Fonte: TIME

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

FORÇAS ARMADAS

Egípcia posa nua em blog e provoca indignação