Crianças aprendem a ‘colorir’ o terrorismo
Livro apresenta Osama bin Laden usando mulher muçulmana como escudo humano
A maior parte das crianças nas escolas primárias atualmente nasceu depois do 11 de setembro de 2001, e isso criou um dilema para seus pais: como explicar um evento para uma criança que não tem qualquer conhecimento prévio do assunto? Com a aproximação do décimo aniversário da tragédia, pais se preocupam com a possibilidade de ter que explicar o pior atentado terrorista da história. Uma saída é esquecer a complexidade do assunto e simplesmente presenteá-las com um novo livro para ser colorido, “We Shall Never Forget 9/11: The Kids’ Book of Freedom” (“Nunca Devemos Esquecer o 11/ 09: O livro Infantil da Liberdade”), que explica tudo sobre o assunto – e ainda por cima dá a chance às crianças de colorirem desenhos de extremo mau gosto, como o que retrata um membro do exército apontando um fuzil na direção de uma mulher muçulmana usada como escudo humano por Osama bin Laden.
Infelizmente, esse não é o único livro de colorir sobre o assunto. A Fema (Agência Federal de Gestão de Emergências) produziu o infeliz “A Scary Thing Happened” (“Algo Assustador Aconteceu”), que apresenta uma série de desastres, com destaque para imagens do World Trade Center, que foi retirado de circulação graças às ferozes críticas que recebeu. Mas o novo livro, da editora Really Big Coloring Books é o primeiro a se concentrar exclusivamente nos ataques terroristas e em suas consequências.
“O livro foi criado com honestidade, integridade, reverência, respeito, e não foge da verdade”, diz a editora em seu website. “Nesse livro você verá o que acontece a um terrorista que ordena que outros bombardeiem nossa adorável e pacífica nação”. A editora recomenda que pais acompanhem a leitura do livro.
Lavagem cerebral?
Os pais deveriam se preocupar com as imagens fortes, as mensagens ocultas, ou ambos? Os editores classificam o livro como “um romance gráfico para colorir”, o que significa imagens menores a serem coloridas e textos maiores em cada página. Acima da imagem de Bin Laden quatro longos parágrafos descrevendo a missão de caçar o terrorista mais procurado do planeta e matá-lo.
Veja um trecho do livro:
Crianças, a verdade é que esses atos terroristas foram cometidos por muçulmanos radicais extremistas que odeiam a liberdade. Essas pessoas odeiam o estilo de vida dos norte-americanos porque somos LIVRES e nossa sociedade é LIVRE. Devemos estar prontos para conhecer e entender a verdade. Os Estados Unidos são LIVRES. Pergunte a seus pais, seu professor, seu pastor, o que isso realmente significa. O que significa ser LIVRE? Por que somos pessoas LIVRES? Somos livres para pensar, livres para sermos honestos, livres para escrever, livres para viver como quisermos. Somos os Estados Unidos. Os Estados Unidos não odeiam outros povos no mundo, mas amamos o mundo em que vivemos, e defenderemos nosso estilo de vida
O Conselho de Relações Islâmico-Americanas (Cair) criticou o livro, afirmando que ele condena os muçulmanos por sempre apresentá-los acompanhados das palavras “extremista” e “terrorista”. “Todos esses estereótipos podem influenciar as mentes jovens e levá-las a acreditar que todos os muçulmanos são responsáveis pelo 11 de setembro, ou que os muçulmanos são inimigos dos Estados Unidos”, disse o diretor do Cair, Dawud Walid.
“Ele diz que o livro é asqueroso, mas deveria considerar os personagens do livro, os 19 terroristas, e Osama bin Laden, asquerosos. Isso é história. É absolutamente factual”, rebateu o editor Wayne Bell.
A maioria dos livros da editora é inofensiva. Vários deles são religiosos e outros são livros tradicionais, com borboletas e outros animais. E eles não são uma editora conservadora, há inclusive um livro sobre o presidente Obama. Mas a Really Big Coloring causou polêmica no ano passado quando produziu um livro sobre o Tea Party, que trazia crianças envolvidas com o comércio colhendo os frutos do que parecia ser uma árvore de dinheiro. Bell disse ter recebido ameaças de morte, incluindo uma carta de um homem que dizia ter planos de aplicá-lo uma “chave de pescoço clorofórmica”.
Os dez mil exemplares da primeira edição do livro sobre o 11 de setembro se esgotaram., mas é difícil dizer quantas pessoas compraram o livro por curiosidade e quantos dos exemplares irão, de fato, acabar na mão de crianças armadas de lápis de cor, se perguntando que cor devem usar os bombeiros nas ruínas do World Trade Center.
Fonte: The New Yorker
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