Uma revolução no Mundo

Código foi baseado em método de transmissão de informações no escuro (Reprodução/Internet)
Louis Braille nasceu no dia 4 de janeiro de 1809 em Coupvray e morreu em 6 de janeiro de 1852 em Paris, dois dias depois de completar 43 anos.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, em todo o mundo são cerca de 180 milhões de deficientes visuais. Todos devem muito a Louis Braille, que nasceu há dois séculos em Coupvray, ficou cego quatro anos depois em um acidente na oficina do seu pai, foi mandado para o Instituto Real para Jovens Cegos de Paris, e lá criou o código que leva seu nome a partir de um método de transmissão de informações no escuro desenvolvido por um militar francês. Ele revolucionou não o seu país, que isto já havia sido feito por Robespierre, Marat e Danton, mas sim o dia-a-dia de pessoas comuns, de todo o planeta, cuja deficiência significa dificuldades redobradas para levar uma vida que muitas vezes já seria dura demais. Em 1952 o governo francês transferiu seus restos mortais para o Panthéon, em Paris, onde estão sepultados os heróis da França. No caso de Braille, do mundo.
Qualquer pessoa com algum grave problema de visão que faça uma visita à Biblioteca Nacional, no centro do Rio de janeiro, conseguirá ler — ou ouvir — a maioria das obras que estão disponíveis para a maior parte do seu público, ou seja, aqueles que têm olhos de lince ou que conseguem se virar atrás de lentes de qualquer grau.
Na área para deficientes visuais da biblioteca, os visitantes com “baixa visão” (aqueles que enxergam, mas enxergam muito mal) têm à disposição um ampliador de textos eletrônicos para que possam ler sem dificuldades as obras do acervo digital. Já os cegos podem usar um scanner que funciona como leitor autônomo ou como transcritor para um aparelho chamado “linha Braille”.
No primeiro caso, pode-se ouvir por meio de um fone o que está sendo escaneado; no segundo, o conteúdo do livro é convertido automaticamente para um leitor em braille dinâmico, no qual os pontos em relevo que caracterizam o método vão subindo e descendo ao correr dos dedos, formando palavras, frases, parágrafos, capítulos e livros inteiros em uma pequena superfície eletrônica, proporcionando o prazer incomparável da leitura àqueles que a natureza privou da visão, ou que foram privados dela por alguma fatalidade da vida.
Duas colunas, cada uma com três pontos, cujas combinações resultam em 64 símbolos em relevo. Apenas um pontinho em relevo no canto superior esquerdo é a letra “a” do alfabeto Braille. Para formar a letra “b”, basta acrescentar um segundo pontinho, logo abaixo, e assim sucessivamente. Já os números são formados por combinações de celas, como são chamados cada conjunto de duas colunas de pontos onde se produz um símbolo Braille — a base do código.
Simples, mas quanta diferença tamanha simplicidade é capaz de fazer! Aliado à tecnologia, então, nem se fala. O francês Louis Braille talvez não pudesse imaginar que o sistema de escrita e leitura em relevo inventado por ele há quase dois séculos fosse abrir as janelas do mundo e da alma para milhões e milhões de pessoas ao longo de todo este tempo.
Aos 17 anos, quando já ensinava o método a parisienses cegos — às escondidas, porque ainda não era algo oficialmente reconhecido — ele não poderia supor que no início do século XXI haveria até mesmo um aparelhinho chamado “Mouskie”, um mouse de computador que facilita a aprendizagem do alfabeto Braille. Ele, que viveu muito, muito antes de alguém falar pela primeira vez em informática.
Com ou sem a ajuda do “Mouskie”, leva-se menos tempo para aprender o Braille do que costumeiramente se imagina. Não é o caso de se deparar com uma nova língua; trata-se apenas de se familiarizar com um novo alfabeto. Um curso para normovisuais — os que enxergam normalmente — não costuma exceder as 30 horas. Aprender o código é fundamental para familiares de pessoas cegas e para aqueles que trabalham com quem tem esta deficiência.
No Brasil há 2,5 milhões de deficientes visuais, entre portadores de “baixa visão” ou de cegueira. O primeiro passo para garantir seus direitos de cidadania foram dados ainda no século XIX, quando Dom Pedro II criou o Imperial Instituto dos Meninos Cegos, em 1854. Dois anos depois, em 1856, o método Braille começou a ser adotado por aqui. Mais tarde, em 1891, a instituição recebeu o nome que tem hoje: Instituto Benjamin Constant (IBC). Está sediado no bairro carioca da Urca. Foi a primeira escola para cegos da América Latina.
Lá funciona desde 1863 a imprensa Braille, que produz livros didáticos e técnicos que são enviados para todo o país. Desde 1998 a gráfica do Benjamin Constant imprime também cardápios, calendários, manuais diversos e cédulas eleitorais. O instituto ainda edita e distribui as duas únicas revistas informativas periódicas impressas em Braille em território nacional: a Revista Brasileira para Cegos, que tem 2000 assinantes, e a Pontinhos, voltada para o público infanto-juvenil.
No dia 4 de agosto de 2008, o bispo Marcelo Crivella distribuiu santinhos em Braille no Instituto Benjamin Constant durante sua candidatura fracassada à prefeitura do Rio. Isto Louis Braille também não poderia prever.
Confira a grafia braille da língua portuguesa no site do Instituto Benjamin Constant
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