SAÚDE PÚBLICA BRASIL

Caos na saúde: a culpa é dos velhos, dos sindicalizados e dos ‘ralos’


“Um deles tinha 83 anos e estava aqui há oito dias, já em situação muito delicada. Então, ele não resistiu”. Foi o que disse o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, sobre um dos três pacientes que morreram quando foram retirados às pressas do Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Zona Oeste da cidade, durante um incêndio que destruiu parte do hospital no último dia 3. Outros dois morreram poucos dias depois.

“Então, ele não resistiu”. Então, a culpa é dos velhos. “Então, foi porque eu era jovem”, disse Crivella em outra ocasião, referindo-se a quando tinha não 20, mas 40 anos, idade com que escreveu um livro sobre a “conduta maligna” dos homossexuais.

Segundo o secretário da Casa Civil carioca, Paulo Messina – a quem Crivella delegou “superpoderes” na saúde -, a culpa do caos na saúde do Rio é dos profissionais da área também. Especificamente daqueles que vêm reagindo, com paralisações, ao atraso de salários, demissão de 1.400 funcionários de atenção básica, extinção de 239 equipes de saúde da família, cortes de R$ 166 milhões na saúde municipal.

“População, se vocês começarem a receber dispensa, isso é uma reação das OSs, ou é uma reação de funcionários sindicalizados. Denunciem!”, disse Messina em entrevista à Rede Globo no dia 31 de outubro.

“E só conversar com a Márcia que ela vai anotar”, talvez rematasse o próprio prefeito, prometendo, quem sabe, algum prêmio – além, claro, da vida eterna.

Delação e ‘saudável competição’

Um dia após Paulo Messina, supersecretário de Marcelo Crivella, conclamar doentes a denunciarem profissionais de saúde sindicalizados, Sérgio Moro, precursor da delação premiada no Brasil, virou superministro de Jair Bolsonaro, em cujo plano de governo consta o estímulo a uma “saudável competição” entre sindicatos de uma mesma categoria numa mesma cidade, o que é proibido pela Constituição.

Nesta terça-feira, 20, Luiz Henrique Mandetta foi confirmado por Jair Bolsonaro como ministro da Saúde do governo que começa em janeiro. Mandetta é deputado federal pelo DEM e pelo Mato Grosso do Sul, foi presidente da Unimed de Campo Grande e, não menos importante, médico tenente no Hospital Geral do Exército. Antes de tudo isso, formou-se em medicina pela Universidade Gama Filho, especializando-se em ortopedia.

Horas depois do anúncio do nome de Mandetta para a Saúde, a ambulância que socorreu dona Sirlei Ferreira, de 76 anos de idade, parava finalmente na emergência do Hospital Salgado Filho, na Zona Norte do Rio. Na UPA de Madureira e na emergência do Hospital Carlos Chagas, ambos mais próximos de onde a idosa havia caído e machucado o pé, não tinha um só ortopedista como Mandetta para “cuidar das pessoas”. No Salgado Filho, dona Sirlei levou seis horas para ser atendida.

“Tem que tapar os ralos que existem, tem que racionalizar, porque não tem como investir mais na saúde”, disse Jair Bolsonaro na primeira vez em que cogitou publicamente o nome de Luiz Henrique Mandetta para compor seu ministério, no último 13 de novembro. Em campanha, Bolsonaro costumava dizer que para o “ralo” vão “um terço” dos recursos destinados à Saúde no Brasil.

Bolsonaro nunca deu maiores detalhes sobre os “ralos” da saúde. A exemplo, aliás, de quando disse que há alta mortalidade infantil no país porque, ponto crucial, “gestante não cuida da saúde bucal”. A exemplo, aliás, de quando disse, nesta quarta-feira, 21, que os primeiros cubanos do Mais Médicos que deixaram o Brasil eram agentes infiltrados.

Um dia antes, na terça, já na condição de futuro ministro confirmado, Mandetta afirmou que o programa Mais Médicos era “um convênio entre Cuba o PT”, não entre Brasil e Cuba. A indicação do seu nome para ser ministro da Saúde do governo Bolsonaro seria um convênio entre a bancada dos planos de saúde e exatamente o quê?

De velhice

O paciente do Hospital Lourenço Jorge a que se referiu Marcelo Crivella (“Então, ele não resistiu”) tinha 68 anos em 2003. Pelo menos desde 2003 o Lourenço Jorge não tem sistema de prevenção de incêndio. Tinha 81 anos quando Crivella foi eleito prefeito prometendo “cuidar das pessoas”, em 2016. Tinha 83 anos e morreu quando ardeu o Lourenço Jorge, em 2018, menos de uma semana depois da eleição de Bolsonaro, menos de um mês antes do desmantelamento do Mais Médicos, que, segundo Mandetta, precisa mudar de nome para “Mais Saúde”.

Luíza Erundina, por exemplo, tem hoje 83 anos e acaba de ser reeleita deputada federal, com 177.883 votos. Pepe Mujica tem 83 anos e no último 14 de agosto renunciou ao Senado uruguaio para, segundo ele, tirar uma licença antes de morrer, como se deve, de velhice.

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