CRISE- Desigualdade aumenta no Brasil

A situação é preocupante principalmente porque o bolo a ser dividido não só encolheu, mas murchou para os mais pobres (Foto: Wikimedia)

Depois de atingir níveis recordes em 2016, o desemprego faz com que a desigualdade social aumente no Brasil. Segundo o índice de Gini, calculado pela FGV Social, a disparidade da renda domiciliar per capita registrou o primeiro aumento em 22 anos, desde que o Plano Real entrou em vigência. O indicador varia de zero a um, e quanto mais perto do zero, mais igual é a sociedade. O registro do ano passado chegou a 0,5229, uma alta de 1,6% em relação a 2015.

Este número significa que o Brasil sofreu um retrocesso de três anos e anulou a redução da desigualdade registrada em 2014 e 2015.

“Além do aumento do desemprego, tem a inflação corroendo a renda média. O desemprego se tornou sério porque aumentou, mas também porque é de longa duração”, analisa o economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “A pessoa fica desempregada e demora a sair da situação.”

De acordo com o economista, a situação é preocupante principalmente porque o bolo a ser dividido não só encolheu, mas murchou para os mais pobres. Ele observa que os efeitos sobre esta parte da população são muito prejudiciais para a economia, uma vez que os mais pobres comprometem a maior parte da renda com consumo, tornando-os importantes para que a atividade econômica brasileira volte a crescer.

“Estamos andando para trás em justiça social. Em 2015, apesar de o índice de Gini ter ficado estável, a renda dos 5% mais pobres já havia caído 14%, e a pobreza, aumentado 19,3%. O resultado de 2016 penalizando este grupo novamente é uma desgraça. Se os mais pobres estão perdendo mais, as empresas vendem menos. A queda do consumo é mais forte quando a desigualdade aumenta. Programas voltados aos mais pobres, como o Bolsa Família, têm um impacto multiplicador sobre a demanda da economia três vezes maior que o da Previdência ou o do FGTS”, exemplifica Neri.

Para o economista Manuel Thedim, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), os novos dados não são uma surpresa. “Quem perde o emprego primeiro na recessão são os mais pobres e menos escolarizados, logo, os de menor produtividade”, diz. “Um economista, na década de 1950, conseguiu comprovar que renda, escolaridade e produtividade têm uma correlação forte. Quem tem mais anos de estudo terá mais renda do que quem tem menos anos de estudo. Se o desemprego tivesse atingido os mais ricos, a desigualdade teria caído.”
O Globo

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