CONCORRÊNCIA NA ERA DIGITAL
Como domar as gigantes tecnológicas
Gigantes tecnológicas projetam uma concorrência desleal no mercado (Foto: Flickr/David Parkins)
Tempos atrás, ser dono de uma empresa tecnológica de sucesso era o sonho de muitos empreendedores. Conforme o setor avançou, surgiram empresas como Google, Facebook e Amazon, com a promessa de tornar o mundo melhor, algo que muitos usuários concordam.
Passada a euforia, hoje, essas empresas são acusadas de serem grandes, anticompetitivas, viciantes e danosas para a democracia. Multas foram aplicadas, acusações políticas foram feitas e antigos usuários hoje alertam sobre os males que o poder dessas empresas podem causar.
Parte das críticas é equivocada, uma vez que é um erro presumir que grandes empresas são necessariamente ruins. A Apple se tornou a empresa mais admirada e com maior valor de mercado simplesmente por desenvolver dispositivos que as pessoas querem comprar. Além disso, o famigerado fenômeno das Fake News não é necessariamente algo criado pela tecnologia.
Apesar disso, as chamadas “gigantes tecnológicas”, especialmente Google, Facebook e Amazon, despertam preocupação em torno da justa concorrência. Em parte porque elas se beneficiam de isenções jurídicas. Diferentemente das editoras tradicionais, Google e Facebook quase nunca são responsabilizadas pela forma como seus usuários as utilizam. E, durante anos, a Amazon vendeu produtos sem cobrar imposto sobre vendas.
Pouco a pouco, as gigantes tecnológicas deixaram de ser parte do mercado, para se tornar o mercado, provendo infraestrutura (ou “plataformas”) para a maior parte da economia digital. Muitos de seus serviços são apresentados como “gratuitos”, mas os usuários “pagam” por eles ao fornecer dados pessoais.
Logo, há um temor justificado de que as gigantes tecnológicas vão usar seus poderes para proteger e expandir seus domínios em detrimento dos consumidores. E será uma tarefa difícil para os reguladores conter tal ameaça sem prejudicar a inovação.
As plataformas online se tornaram poderosas graças ao chamado “efeito de rede”. Tamanho gera tamanho: quanto mais vendedores a Amazon atrair, mais consumidores comprarão através dela, o que atrairá mais vendedores e assim por diante. Estimativas apontam que, hoje, ela representa 40% das vendas online feitas nos Estados Unidos. Com bilhões de usuários, o Facebook domina o setor midiático. Para completar, as empresas não sobrevivem se não estiverem presentes nas buscas do Google, que em alguns países representa 90% das buscas são feitas na internet. Juntas, Google e Facebook representam dois terços da renda gerada pela publicidade online nos EUA.
Os reguladores americanos dão às gigantes tecnológicas o benefício da dúvida. Eles dão ênfase aos danos causados aos usuários, algo difícil de mesurar quando os preços são baixos e os serviços são gratuitos. As gigantes tecnológicas, por sua vez, ressaltam que podem surgir a qualquer momento outras empresas capazes de suplantá-las. Antes de Facebook e Google, por exemplo, havia Alta Vista e My Space. Alguém lembra dessas plataformas?
Porém, as barreiras para que tais concorrentes entrem no mercado estão ficando maiores. O Facebook não só detém a maior fatia de dados pessoais na rede, mas também o maior “gráfico social” – a lista de usuários e suas conexões. A Amazon tem mais informações sobre preços do que qualquer outra firma.
Se essa tendência continuar, prejudicará os consumidores e tornará o setor tecnológico menos vibrante. Start-ups arrecadarão menos dinheiro e cada vez mais boas ideias serão compradas pelas gigantes tecnológicas.
Os sinais dessa tendência já são visíveis. No ano passado, a Comissão Europeia acusou a Google de usar seu sistema operacional o Android, para sufocar seus rivais. O Facebook segue comprando empresas rivais que poderiam se tornar concorrentes, como os aplicativos Instagram e WhatsApp.
O que fazer?
Há duas abordagens que podem domar as gigantes tecnológicas. A primeira é fazer um melhor uso das leis de concorrência vigentes. Os reguladores devem supervisionar as fusões e aquisições que podem neutralizar a concorrência. Se isso estivesse em vigor, o Facebook jamais teria comprado o Instragram e o WhatsApp.
Em segundo lugar, os agentes reguladores precisam entender melhor como o mercado tecnológico funciona. Uma questão central deste debate é o fato de que os dados pessoais são, hoje, a “moeda” com a qual os usuários “compram” os serviços “gratuitos”. As gigantes tecnológicas recebem as informações pessoais dos usuários – suas preferências, amizades, hábitos de consumo – em troca de seus serviços. Tais informações são vendidas ou usadas para desenvolver novos produtos. Uma forma de impedir isso é regular o acesso e o domínio sobre os dados dos usuários, similar ao que foi feito no final do século XIX, quando os Estados Unidos traçaram rígidas regras de proteção à propriedade intelectual.
Os usuários devem ter poder sobre suas informações, decidindo se elas podem ser acessadas por outras empresas. Os reguladores também podem usar as informações autorizadas para criar uma espécie de “banco de dados anônimo”, disponível para os concorrentes.
Tais medidas não seriam simples de implementar, mas poderiam domar as gigantes tecnológicas, sem prejudicar a inovação ou os consumidores.The Economist
Gigantes tecnológicas projetam uma concorrência desleal no mercado (Foto: Flickr/David Parkins)
Tempos atrás, ser dono de uma empresa tecnológica de sucesso era o sonho de muitos empreendedores. Conforme o setor avançou, surgiram empresas como Google, Facebook e Amazon, com a promessa de tornar o mundo melhor, algo que muitos usuários concordam.
Passada a euforia, hoje, essas empresas são acusadas de serem grandes, anticompetitivas, viciantes e danosas para a democracia. Multas foram aplicadas, acusações políticas foram feitas e antigos usuários hoje alertam sobre os males que o poder dessas empresas podem causar.
Parte das críticas é equivocada, uma vez que é um erro presumir que grandes empresas são necessariamente ruins. A Apple se tornou a empresa mais admirada e com maior valor de mercado simplesmente por desenvolver dispositivos que as pessoas querem comprar. Além disso, o famigerado fenômeno das Fake News não é necessariamente algo criado pela tecnologia.
Apesar disso, as chamadas “gigantes tecnológicas”, especialmente Google, Facebook e Amazon, despertam preocupação em torno da justa concorrência. Em parte porque elas se beneficiam de isenções jurídicas. Diferentemente das editoras tradicionais, Google e Facebook quase nunca são responsabilizadas pela forma como seus usuários as utilizam. E, durante anos, a Amazon vendeu produtos sem cobrar imposto sobre vendas.
Pouco a pouco, as gigantes tecnológicas deixaram de ser parte do mercado, para se tornar o mercado, provendo infraestrutura (ou “plataformas”) para a maior parte da economia digital. Muitos de seus serviços são apresentados como “gratuitos”, mas os usuários “pagam” por eles ao fornecer dados pessoais.
Logo, há um temor justificado de que as gigantes tecnológicas vão usar seus poderes para proteger e expandir seus domínios em detrimento dos consumidores. E será uma tarefa difícil para os reguladores conter tal ameaça sem prejudicar a inovação.
As plataformas online se tornaram poderosas graças ao chamado “efeito de rede”. Tamanho gera tamanho: quanto mais vendedores a Amazon atrair, mais consumidores comprarão através dela, o que atrairá mais vendedores e assim por diante. Estimativas apontam que, hoje, ela representa 40% das vendas online feitas nos Estados Unidos. Com bilhões de usuários, o Facebook domina o setor midiático. Para completar, as empresas não sobrevivem se não estiverem presentes nas buscas do Google, que em alguns países representa 90% das buscas são feitas na internet. Juntas, Google e Facebook representam dois terços da renda gerada pela publicidade online nos EUA.
Os reguladores americanos dão às gigantes tecnológicas o benefício da dúvida. Eles dão ênfase aos danos causados aos usuários, algo difícil de mesurar quando os preços são baixos e os serviços são gratuitos. As gigantes tecnológicas, por sua vez, ressaltam que podem surgir a qualquer momento outras empresas capazes de suplantá-las. Antes de Facebook e Google, por exemplo, havia Alta Vista e My Space. Alguém lembra dessas plataformas?
Porém, as barreiras para que tais concorrentes entrem no mercado estão ficando maiores. O Facebook não só detém a maior fatia de dados pessoais na rede, mas também o maior “gráfico social” – a lista de usuários e suas conexões. A Amazon tem mais informações sobre preços do que qualquer outra firma.
Se essa tendência continuar, prejudicará os consumidores e tornará o setor tecnológico menos vibrante. Start-ups arrecadarão menos dinheiro e cada vez mais boas ideias serão compradas pelas gigantes tecnológicas.
Os sinais dessa tendência já são visíveis. No ano passado, a Comissão Europeia acusou a Google de usar seu sistema operacional o Android, para sufocar seus rivais. O Facebook segue comprando empresas rivais que poderiam se tornar concorrentes, como os aplicativos Instagram e WhatsApp.
O que fazer?
Há duas abordagens que podem domar as gigantes tecnológicas. A primeira é fazer um melhor uso das leis de concorrência vigentes. Os reguladores devem supervisionar as fusões e aquisições que podem neutralizar a concorrência. Se isso estivesse em vigor, o Facebook jamais teria comprado o Instragram e o WhatsApp.
Em segundo lugar, os agentes reguladores precisam entender melhor como o mercado tecnológico funciona. Uma questão central deste debate é o fato de que os dados pessoais são, hoje, a “moeda” com a qual os usuários “compram” os serviços “gratuitos”. As gigantes tecnológicas recebem as informações pessoais dos usuários – suas preferências, amizades, hábitos de consumo – em troca de seus serviços. Tais informações são vendidas ou usadas para desenvolver novos produtos. Uma forma de impedir isso é regular o acesso e o domínio sobre os dados dos usuários, similar ao que foi feito no final do século XIX, quando os Estados Unidos traçaram rígidas regras de proteção à propriedade intelectual.
Os usuários devem ter poder sobre suas informações, decidindo se elas podem ser acessadas por outras empresas. Os reguladores também podem usar as informações autorizadas para criar uma espécie de “banco de dados anônimo”, disponível para os concorrentes.
Tais medidas não seriam simples de implementar, mas poderiam domar as gigantes tecnológicas, sem prejudicar a inovação ou os consumidores.The Economist

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