DEZ ANOS APÓS A GUERRA
Rússia e Geórgia ensaiam reaproximação
Aproximação com os russos não significa que a Geórgia voltou para a órbita da Rússia (Foto: Wikimedia)
Embaixo das varandas de madeira da charmosa cidade de Tbilisi, os cartazes em estilo medieval que oferecem degustação de vinhos são escritos em russo, georgiano e inglês. Alguns dos grafites estão escritos no alfabeto cirílico. Após a guerra entre a Rússia e a Geórgia, em 2008, os turistas russos desapareceram e o inglês foi adotado pela população local como a língua oficial do turismo. Mas, com o retorno dos russos, a língua russa recuperou seu lugar.
Uma nova geração de líderes políticos georgianos é pragmática no que se refere ao vínculo com a Rússia. Os dois países ainda não restabeleceram as relações diplomáticas, mas as autoridades mantêm negociações bilaterais regulares. Iniciativas práticas estão facilitando o comércio, as viagens e os transportes entre os dois países. “O atual governo não assumiu uma posição antagônica com a Rússia”, disse Ojars Kalnins, um político e diplomata da Letônia.
Essa atitude é muito diferente da abordagem da Geórgia durante o governo do ex-presidente, Mikheil Saakashvili. Ele gostava de provocar Vladimir Putin chamando-o de “liliputiano” e não escondia sua admiração pelos EUA que, por sua vez, o considerava um exemplo da democracia em uma região dominada pelo autoritarismo. As tensões crescentes com a Rússia resultaram em uma guerra de cinco dias em que a Geórgia foi derrotada. Com um governo cada vez mais autoritário, Sakashvili perdeu as eleições em 2012 para o partido Sonho Georgiano, um movimento liderado pelo homem mais rico do país, Bidzina Ivanishvili.
Essa aproximação com os russos significa que a Geórgia voltou para a órbita da Rússia? “O tom de confronto que dominou o governo de Saakashvili foi substituído por um discurso conciliatório. Mas o conteúdo da mensagem não é muito diferente”, esclareceu Salome Zurabishvili, ex-ministro das Relações Exteriores de Saakashvili e um deputado independente. A Geórgia quer aderir à União Europeia (UE) e mantém sua posição sobre a disputa de fronteiras. Com o apoio da UE e da Otan, o governo considera que as regiões da Abecásia e da Ossétia do Sul, cujos governos apoiados pela Rússia declararam independência, pertencem ao território georgiano.
As autoridades da UE aprovam a abordagem “pragmática, mas baseada em princípios” do governo da Geórgia em relação à Rússia. A expectativa é de uma solução da disputa de fronteiras em um ambiente menos conflituoso. Mas a Rússia mantém uma posição hostil diante dos esforços de conciliação da Geórgia.
A Geórgia é um dos países com mais chances de integrar a União Europeia, graças a algumas reformas políticas, como a melhoria dos direitos das minorias. Em 2016, entrou em vigor um acordo de associação e livre comércio entre a UE e a Geórgia. Em março de 2017, a UE deu acesso aos cidadãos georgianos aos seus países membros sem necessidade de visto. Mas a Geórgia ainda enfrenta dificuldades em atender a alguns requisitos da UE, como a questão ambiental e de proteção aos direitos dos trabalhadores.
Apesar das eleições de 2012, que marcaram a primeira transição política pacífica da Geórgia desde a independência, o partido Sonho Georgiano é acusado de estimular a oposição. Ainda mais preocupante é a influência política de Ivanishvili, o homem mais poderoso do país. Até ocupar o cargo de primeiro-ministro em 2013, ele era uma presença discreta, conhecida pelo gosto exótico por animais de estimação, como cangurus, zebras e pinguins que mantinha em suas propriedades, e por sua filantropia. Ivanishvili financiou a construção de casas para moradores de seu vilarejo natal e da nova catedral luxuosa de Tbilisi. É também conhecido por ajudar intelectuais em dificuldades. Como previsível, sua generosidade aumentou sua esfera de poder e popularidade.
Alguns sugerem que Ivanishvili é a eminência parda por trás das medidas arbitrárias do presidente Giorgi Margvelashvili, que prendeu dezenas de membros do governo anterior acusados de abuso de poder. Mas apesar da demonstração de força política, o governo não tem uma ideologia que reflita e defenda os interesses e compromissos institucionais do país, essencial para enfrentar a Rússia e fazer as reformas necessárias a fim de atender às exigências da UE. É preciso que o governo reformule algumas de suas estratégias e que, embora rejeite o despotismo de Saakashvili, reconheça que sua criatividade e visão de futuro beneficiariam o país nesse momento de transição.The Economist
Aproximação com os russos não significa que a Geórgia voltou para a órbita da Rússia (Foto: Wikimedia)
Embaixo das varandas de madeira da charmosa cidade de Tbilisi, os cartazes em estilo medieval que oferecem degustação de vinhos são escritos em russo, georgiano e inglês. Alguns dos grafites estão escritos no alfabeto cirílico. Após a guerra entre a Rússia e a Geórgia, em 2008, os turistas russos desapareceram e o inglês foi adotado pela população local como a língua oficial do turismo. Mas, com o retorno dos russos, a língua russa recuperou seu lugar.
Uma nova geração de líderes políticos georgianos é pragmática no que se refere ao vínculo com a Rússia. Os dois países ainda não restabeleceram as relações diplomáticas, mas as autoridades mantêm negociações bilaterais regulares. Iniciativas práticas estão facilitando o comércio, as viagens e os transportes entre os dois países. “O atual governo não assumiu uma posição antagônica com a Rússia”, disse Ojars Kalnins, um político e diplomata da Letônia.
Essa atitude é muito diferente da abordagem da Geórgia durante o governo do ex-presidente, Mikheil Saakashvili. Ele gostava de provocar Vladimir Putin chamando-o de “liliputiano” e não escondia sua admiração pelos EUA que, por sua vez, o considerava um exemplo da democracia em uma região dominada pelo autoritarismo. As tensões crescentes com a Rússia resultaram em uma guerra de cinco dias em que a Geórgia foi derrotada. Com um governo cada vez mais autoritário, Sakashvili perdeu as eleições em 2012 para o partido Sonho Georgiano, um movimento liderado pelo homem mais rico do país, Bidzina Ivanishvili.
Essa aproximação com os russos significa que a Geórgia voltou para a órbita da Rússia? “O tom de confronto que dominou o governo de Saakashvili foi substituído por um discurso conciliatório. Mas o conteúdo da mensagem não é muito diferente”, esclareceu Salome Zurabishvili, ex-ministro das Relações Exteriores de Saakashvili e um deputado independente. A Geórgia quer aderir à União Europeia (UE) e mantém sua posição sobre a disputa de fronteiras. Com o apoio da UE e da Otan, o governo considera que as regiões da Abecásia e da Ossétia do Sul, cujos governos apoiados pela Rússia declararam independência, pertencem ao território georgiano.
As autoridades da UE aprovam a abordagem “pragmática, mas baseada em princípios” do governo da Geórgia em relação à Rússia. A expectativa é de uma solução da disputa de fronteiras em um ambiente menos conflituoso. Mas a Rússia mantém uma posição hostil diante dos esforços de conciliação da Geórgia.
A Geórgia é um dos países com mais chances de integrar a União Europeia, graças a algumas reformas políticas, como a melhoria dos direitos das minorias. Em 2016, entrou em vigor um acordo de associação e livre comércio entre a UE e a Geórgia. Em março de 2017, a UE deu acesso aos cidadãos georgianos aos seus países membros sem necessidade de visto. Mas a Geórgia ainda enfrenta dificuldades em atender a alguns requisitos da UE, como a questão ambiental e de proteção aos direitos dos trabalhadores.
Apesar das eleições de 2012, que marcaram a primeira transição política pacífica da Geórgia desde a independência, o partido Sonho Georgiano é acusado de estimular a oposição. Ainda mais preocupante é a influência política de Ivanishvili, o homem mais poderoso do país. Até ocupar o cargo de primeiro-ministro em 2013, ele era uma presença discreta, conhecida pelo gosto exótico por animais de estimação, como cangurus, zebras e pinguins que mantinha em suas propriedades, e por sua filantropia. Ivanishvili financiou a construção de casas para moradores de seu vilarejo natal e da nova catedral luxuosa de Tbilisi. É também conhecido por ajudar intelectuais em dificuldades. Como previsível, sua generosidade aumentou sua esfera de poder e popularidade.
Alguns sugerem que Ivanishvili é a eminência parda por trás das medidas arbitrárias do presidente Giorgi Margvelashvili, que prendeu dezenas de membros do governo anterior acusados de abuso de poder. Mas apesar da demonstração de força política, o governo não tem uma ideologia que reflita e defenda os interesses e compromissos institucionais do país, essencial para enfrentar a Rússia e fazer as reformas necessárias a fim de atender às exigências da UE. É preciso que o governo reformule algumas de suas estratégias e que, embora rejeite o despotismo de Saakashvili, reconheça que sua criatividade e visão de futuro beneficiariam o país nesse momento de transição.The Economist

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