O desafio da identidade racial brasileira...em debate.


Brasil iniciou programas de ações afirmativas em 2004, durante o governo de Lula

O jornal norte-americano The New York Times abriu sua seção de debates para discutir as cotas raciais nas universidades brasileiras. Comparações foram realizadas entre a experiência brasileira e o sistema norte-americano de ações afirmativas, e – e embora muitos concordem que os cenários raciais e sociais são diferentes no Brasil e nos Estados Unidos – a conclusão geral é a de que ambos os lados podem aprender com as experiências do outro.

“Em 2004, quando as universidades estaduais e federais começaram a implementar as políticas de ações afirmativas , o Brasil encerrou um capítulo de sua história, e deu início a outro”, diz Melissa Nobles, professora de ciência política do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e autora de Shades of Citizenship: Race and the Census in Modern Politics. “Ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, a experiência pós-escravidão no Brasil não incluiu barreiras legais e sociais, logo, em tese, as políticas de ações afirmativas não seriam necessárias”.

“No Brasil não havia leis dividindo as pessoas em ‘raças’, ou proibindo casamentos interraciais no período pós-abolição”, afirma Yvonne Maggie, professora do Departamento de Antropologia Cultural da UFRJ, e autora de Guerra de Orixá e Medo do Feitiço, que acredita que o Brasil errou ao se inspirar no modelo dos Estados Unidos. “O resultado foi uma sociedade nacional baseada na ideia da mistura. As ações afirmativas norte-americanas querem unir e equalizar o que foi separado pela lei. Para fazer isso, teríamos que criar identidades legais baseadas na oposição entre brancos e negros”. Já João Jorge Santos, presidente do grupo cultural Olodum, enxerga no modelo brasileiro uma vitória que poderia, inclusive, ser copiada pelos Estados Unidos. “A combinação de ação social e apoio aos brasileiros descendentes de africanos é uma novidade que pode inspirar os Estados Unidos”, afirma.

O problema da classificação racial no Brasil

A ausência de uma segregação oficial e os grandes índices de miscigenação do país, geram constantes dúvidas sobre quem deve ou não ser considerado negro o suficiente para fazer parte do sistema de cotas universitárias. Embora reconheça que o programa “funciona” no sentido de que aumentou o orgulho dos brasileiros de pele mais escura, o antropólogo Peter Fry também vê problemas na classificação racial, um novidade dentro da sociedade brasileira: “Preferiria ver as ações afirmativas sendo aplicadas sobre uma base social, e não racial, e insistiria em medidas eficazes que combatessem o preconceito e a discriminação racial. Infelizmente essas medidas ficaram em segundo plano com a implantação do sistema de cotas”.

Para Jerry Dávila, professor de história nas universidades da Carolina do Norte e Illinois, e autor de Hotel Trópico: Brazil and the Challenge of African Decolonization e Diploma of Whiteness: Race and Social Policy in Brazil, as políticas brasileiras não buscam reverter legados do racismo, mas sim, reconhecer e combater desigualdades atuais. A opinião é compartilhada por Micol Seigel, professora da Universidade de Indiana, e autora de Uneven Encounters: Making Race and Nation in Brazil and the United States: “Um sistema híbrido semelhante ao do Brasil faria com que os Estados Unidos abordassem as desigualdades existentes, já que os Estados Unidos fazem vista grossa para o problema, ignorando o fardo da pobreza que é transmitido de geração em geração. Uma política semelhante, adotada no Texas, dá vagas instantâneas na universidade estadual àqueles que estiverem entre os melhores alunos de cada classe que se forma nas escolas do estado. Políticas como essas conseguem os mesmos resultados que as ações afirmativas tradicionais, com menos críticas”.

“O grande obstáculo para a sociedade brasileira não está nas diferenças entre seu programa de ações afirmativas e o dos Estados Unidos, e sim no perfil autoritário do país”, afirma Marcelo Paixão, professor de economia e sociologia da UFRJ. “O Brasil pode usar as ações afirmativas no estilo das utilizadas nos Estados Unidos para melhorar as condições da população afrodescendente e de outras minorias, mas os Estados Unidos e o Brasil têm histórias diferentes. Não podemos simplesmente copiar a abordagem norte-americana. Ao invés disso, precisamos compreender como os norte-americanos lutam contra o racismo e disseminam a diversidade racial em diferentes áreas da vida social. No Brasil, precisamos superar uma ideologia que não apenas parte do princípio de que o privilégio racial é um direito, mas também, de que todos que criticam essa realidade estão cometendo um crime contra a identidade nacional”.
Fontes: The New York Times

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