segunda-feira, 1 de maio de 2017

CUIDADOS DO FIM DA VIDA

A morte é inevitável, o sofrimento não
Uma morte melhor significa uma vida melhor até os últimos dias (Foto: Wikimedia)

Até o século XX, a expectativa de vida dos seres humanos era similar a dos chipanzés. Hoje, avanços científicos e crescimento econômico levaram o ser humano a viver mais do que qualquer outro mamífero da Terra. Porém, essa longevidade gerou o inesperado efeito colateral de tornar a morte uma experiência medicinal.

Como, quando e onde a morte são coisas que mudaram ao longo do último século. No final da década de 1990, metade das mortes no mundo foram resultado de doenças crônicas. Em 2015, esse patamar subiu para dois terços. A maioria das mortes em países ricos ocorre após anos de deterioração da saúde. A maior parte das mortes ocorre em hospitais e clínicas, quase sempre após anos de tratamentos desesperados.

Estatísticas mostram que quase um terço dos americanos que morre após os 65 anos de idade passa algum tempo em unidades de tratamento intensivo nos três meses finais de vida. Muitos deles são submetidos a cirurgias no último mês de vida.

Embora zelosas, essas intervenções podem aumentar a agonia dos envolvidos. Pacientes com câncer que morrem em hospitais costumam sofrer mais com a dor do que os que morrem em asilos ou em casa. Seus familiares têm mais chances de discutir com médicos e entre si, a sofrer de estresse pós-traumático e sofrer por mais tempo a perda do ente querido.

Acima de tudo, essas mortes “medicadas” parecem não ser o que as pessoas desejam. Pesquisas feitas pela consultora americana Kaiser Family Foundation, em parceria com a revista Economist, revelaram que maioria das pessoas em boas condições de saúde deseja morrer em casa, cercada dos entes queridos. Poucos afirmaram que pretendem prolongar a vida o máximo possível.

Diante desse contexto, muitos advogam pela legalização da morte assistida, para que pacientes terminais e ainda em sã consciência decidam a forma como querem morrer, caso queiram morrer.

Mas o direito de morrer é apenas uma parte das melhorias que precisam ser feitas nos cuidados no final da vida. Para das às pessoas a morte pacífica que elas afirmam querer, a medicina precisa tomar algumas medidas simples.

Uma delas é investir no tratamento paliativo, que alivia a dor e outros sintomas como a dificuldade para respirar. Também é preciso investir em aconselhamento para pacientes terminais, algo que costuma ser negligenciado. Estudos mostram que essas simples medidas não apenas reduzem o sofrimento, mas também prolongam a vida. Também é preciso que pacientes com doenças crônicas possam sair do hospital e voltar para casa. Tal medida exigiria que parte dos fundos do sistema de saúde fosse direcionada à assistência social.

A maioria das pessoas sente medo quando analisa a própria mortalidade. E com a morte escondida em clínicas e hospitais, falar sobre o assunto se torna algo difícil e incômodo. No entanto, conversas abertas e honestas sobre a morte deveriam ser tão comuns quanto falar sobre fraturas ou prescrição de remédios. Uma morte melhor significa uma vida melhor até os últimos dias.The Economist

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