AGENDA DE GOVERNO

Bolsonaro abre mão de liderança ao se engajar em pautas duvidosas

Governo perde protagonismo quando abraça pautas de alcance reduzido (Foto: Valter Campanato/ABr)

Jair Bolsonaro deveria “se preocupar com coisas mais importantes”, e seu engajamento em pautas carregadas de ranço ideológico faz do dia a dia do governo “um show de besteiras”.

Estas afirmações não foram feitas por Fernando Haddad, candidato derrotado do PT à Presidência, Marcelo Freixo, deputado federal pelo PSOL, ou Flávio Dino, governador comunista do Maranhão. São avaliações de Carlos Moisés, correligionário do presidente da República no PSL e governador de Santa Catrina eleito na onda conservadora, e do general da reserva do Exército e ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo de Bolsonaro, Carlos Alberto dos Santos Cruz.

Os dois não tratavam de casos específicos, mas é fácil intuir do que estavam falando: recentemente, por exemplo, o presidente veio a público defender o fim da cobrança das taxas de visitação à ilha de Fernando de Noronha, contrariando a opinião de operadores do turismo e ambientalistas da região; também por determinação sua, os passaportes brasileiros substituíram os termos “genitor” por “pai” e “mãe”, com o intuito declarado de “combater a ideologia de gênero”.

Para a repórter Luciana Amaral, do UoL, o empenho de Bolsonaro em temas de importância duvidosa é tamanho que o faz merecer o apelido de “presidente de pequenas causas”.

E cita alguns outros casos: a interferência direta de Bolsonaro em um comercial do Banco do Brasil que, visando o público jovem, apresentava atores e atrizes descoladas; um projeto de lei por ele apresentado pessoalmente à Câmara que propõe o fim da multa para motoristas com crianças fora da cadeirinha; a preparação de uma norma para acabar com a obrigatoriedade da tomada de três pinos, tornada padrão no governo Lula por ser mais segura, de acordo com relatórios técnicos, à qual o presidente se refere como “tomada do PT”; e, entre tantos outros exemplos, as ofensas homofóbicas ao turismo LGBT: “O Brasil não pode ser um país do turismo gay”, disse o presidente à imprensa, e completou: “quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”.

“Como o governo realiza pouco em políticas públicas e medidas para beneficiar a economia, precisa alimentar sua base eleitoral com outras entregas, muitas no terreno simbólico ou imaginário”, analisa o professor de Arquitetura da UFMG Roberto Andrés, em artigo publicado na revista Piauí, no mês de julho. “Essas entregas buscam propiciar um pequeno gozo via tela de celular e devem ser entremeadas por novos fantasmas a serem combatidos. Assim se obtém a sensação de que algo está sendo feito, mas que a tarefa é ainda muito maior”, conclui.

Para o economista Maílson de Nóbrega, ministro da Fazenda entre 1988 e 1990, ao “se ocupar cotidianamente de temas irrelevantes” Bolsonaro abre mão “do papel reservado ao chefe do governo no presidencialismo brasileiro”: liderar o jogo político.

Em artigo publicado no jornal Globo, o ex-ministro prossegue, avaliando que certas falas e anúncios do nosso governante se dariam pela fraqueza técnica da Casa Civil – que teve mais de 30% de seus funcionários demitidos para, segundo o ministro Onyx Lorenzoni, “despetizar” a pasta:

“Bolsonaro parece não dispor de filtros que o protejam de ações equivocadas, como as de atos flagrantemente inconstitucionais, rejeitados pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Congresso”. Em tom de aviso, termina Nóbrega: “um governo minoritário [no congresso] e sem filtros eficazes é propenso a derrotas, ao fracasso na gestão e, no limite, à interrupção do mandato”.

Carlos Moisés (PSL), governador de Santa Catarina, concorda que o governo perde protagonismo quando abraça pautas de alcance reduzido – papel que caberia a vereadores e deputados, não ao líder do Executivo.

“As pautas de um estadista têm de ser aquelas que atendam à grande maioria das demandas por ações do Estado. Pauta de governo é pauta relevante”, disse, em entrevista ao Estado de S. Paulo.

Como exemplo, o governador catarinense tratou da defesa aguerrida que Bolsonaro faz do ensino residencial – o chamado “homeschooling“:

“É visível que esse não é um programa de governo para a Educação. Não sou contra homeschooling, mas não entendo que deva ser a bandeira de um chefe de Poder. O grande problema da educação brasileira não é essa pequena parcela que quer educar os filhos em casa, são as escolas sem laboratório, tecnologia e internet, com os telhados caindo, são as crianças em estado de vulnerabilidade que não conseguem chegar à aula, é a falta de transporte público e de estrutura rodoviária”, disse.

Antônio Delfim Netto, economista que foi chefe da Fazenda no período de que Bolsonaro mais sente saudades – a ditadura militar -, opina que o “voluntarismo [do Presidente] para implementar ideias duvidosas, sistematicamente rejeitadas por pesquisas empíricas bem conduzidas” tem, porém, um método.

Bolsonaro estaria jogando para sua base de apoio mais convicta – setores reacionários da agroindústria, alas mais conservadoras das religiões neopetencostais, motoristas fartos de serem multados, antifeministas, etc – e buscando se fiar nela para pressionar um Congresso onde ele foi incapaz de formar maioria.

Evidentemente, como lembra Roberto Andrés em seu já citado artigo na Piauí, a estratégia do presidente terá um limite caso os aspectos mais concretos da vida da população – emprego, renda e serviços públicos – permaneçam tal como estão: “Em algum momento as pessoas podem começar a perceber que suas vidas não mudaram muito fora do WhatsApp”.Leandro Aguiar

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