As implicações políticas de um diagnóstico de câncer


Tumores na laringe provavelmente foram causados pelo fumo (Reprodução/AP)

Em 29 de outubro os brasileiros descobriram que Luiz Inácio Lula da Silva, o seu ex-presidente, havia sido diagnosticado com câncer. Os tumores em sua laringe provavelmente foram causados pelo fumo: apesar da pressão alta ter incentivado o homem de 66 anos a largar o vício no ano passado, ele começou quando era adolescente e gostava de cigarrilos (pequenos cigarros sem filtro). Dois dias depois ele começou a quimioterapia no Hospital Sírio Libanês em São Paulo, onde sua sucessora, Dilma Rousseff, foi tratada por um linfoma em 2009. Ele deve passar por radioterapia também, e cancelou todos os seus planos de viagem nos próximos três meses.

A sinceridade de Lula em relação a sua doença marca um forte contraste com o sigilo em relação à saúde do presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Os brasileiros souberam do câncer de Lula no mesmo dia que ele; os venezuelanos só descobriram semanas depois de Chávez ter sido tratado de um “abscesso na pélvis” em Cuba que um tumor cancerígeno havia sido removido. Detalhes de sua condição permanecem desconhecidos. Lula disse aos seus médicos que liberassem boletins de seu progresso; o time médico de Chávez ainda não disse uma palavra.

A imprensa brasileira reagiu à franqueza de Lula com preocupação. “Lula terá que ficar longe da bebida?”, perguntaram os jornalistas (Definitivamente). “Ele vai perder o cabelo?” (Talvez, e sua barba também) “E sua voz?” (por algum tempo, provavelmente, apesar de quimioterapia e radioterapia terem sido escolhidas no lugar de cirurgia parcialmente para proteger sua voz rouca). Curiosidade pública satisfeita, a mídia agora seguiu em frente. Enquanto na Venezuela, a televisão controlada pelo Estado repete que Chávez está curado, nas ruas os boatos correm soltos.

A não ser que haja uma recuperação incrível, os candidatos nas eleições locais de 2012 do Partido dos Trabalhadores de Lula terão que fazer campanha sem os seus endossos. Mas as palavras que ele conseguir dizer vão ser difíceis de ignorar. A empatia vai dar um peso maior às suas escolhas de candidatos e chamadas para união de coalizão.

Dilma gosta de passar as coisas a limpo com seu predecessor. Mas ela pode facilmente andar com as próprias pernas. E os conselhos de Lula tem errado o alvo recentemente. Ele aconselhou várias vezes que ela mantivesse ministros apesar de alegações de corrupção – apenas para ela acabar tendo que demiti-los dias depois.

Antes de assumir o cargo, a limitada experiência eleitoral de Dilma significava que ela seria apenas um guarda posto, uma vez que os presidentes brasileiros devem deixar de disputar uma eleição depois de servirem dois mandatos seguidos. Seu forte desempenho até agora botou essa ideia em cheque, e o próprio Lula disse que irá apoiar sua reeleição em 2014. Mas por trás das cenas alguns membros do partido clamam pelo retorno de Lula.

Como a própria Dilma prova, sobreviventes de câncer podem ser eleitos presidentes no Brasil. Mas apesar dos médicos de Lula dizerem que seu prognóstico é muito bom, tais vozes estão agora fadadas ao silêncio – pelo menos por enquanto.

Fontes: Economist

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