A cólera nas manchetes


Quanto mais miserável um país, mais virulenta é a cólera


A cólera aterrorizou cidades ao longo do século XIX, matando tanto ricos como pobres. A diarréia líquida e o vômito expelido por um corpo infectado pela bactéria Vibrio cholerae é um lembrete bastante extremo do perigo à espreita na corrente de excrementos que flui de qualquer agrupamento humano, criando um problema que poucos querem enfrentar. Nem todo excremento humano contém a bactéria mortal, mas o acúmulo é perigoso e um modo melhor de se livrar destes restos representaria um grande passo no sentido de evitar a cólera e outras doenças intestinais letais.

A cólera ainda é uma questão preocupante, especialmente com o crescimento populacional urbano em países pobres. No Haiti, o Ministério da Saúde informou recentemente que 5.800 pessoas morreram de cólera desde outubro do ano passado.

A Organização Mundial da Saúde diz que dentre 3 a 5 milhões de casos por ano, 100 mil pessoas perecem. Tais surtos têm acontecido em cerca de 45 países. Estes números costumam refletir o nível de desenvolvimento: quanto mais miserável um país, mais virulenta é a cólera. A epidemia haitiana chegou à República Dominicana, onde 13 mil pessoas foram infectadas, mas uma administração e um sistema de saúde melhor do que seu vizinho limitou as mortes a apenas um punhado.

As bacias hidrográficas da Índia e de Bangladesh estão repletas de bactérias transmissoras de doenças intestinais. Alguns casos se manifestam após a ingestão de água contaminada, apesar de a maioria dos casos advir da ingestão de vestígios de fezes oriundos das mãos ou de alimentos.

Nove de cada dez casos de cólera localizam-se na África. Os países mais atingidos são Etiópia, Moçambique e Congo. Algo como 5 mil vidas foram perdidas num surto de cólera no Zimbábue, que teve início em 2008. Houve mais de 50 mil casos de diarreia aguda na Somália neste ano na medida em que agricultores passaram a beber água contaminada em vez do leite extraído de animais — que definharam até a morte por fome.

Há muita preocupação em torno do Congo, onde uma epidemia de cólera esta se espalhando rio abaixo a partir da cidade de Mbandaka. De 10 mil casos, já houve cerca de 280 baixas. Tais números podem aumentar em 20 vezes caso a doença atinja a capital.

Por causa de sua agressividade, a cólera é a doença que acaba aparecendo nas manchetes, mas outras doenças diarréicas matam 1,5 milhão de crianças por ano. Estas doenças “são responsáveis por metade de todas as hospitalizações no mundo em desenvolvimento”, afirma o príncipe Willem-Alexander da Holanda, que preside um grupo de estudos sanitários na ONU.


Fonte:Economist

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