Cinema



O Retrato de Dorian Gray, de Oliver Parquer

O filme é extremamente fiel ao único romance publicado por Oscar Wilde

Por Francisco Taunay

A separação da alma e do corpo é uma das ideias mais poderosas que habitam o nosso imaginário. Existe toda uma mitologia e padrões de comportamento moldados por este princípio, base do catolicismo e de outras religiões. Essa separação possibilitou, por exemplo, que a doutrina da salvação das almas, pedra angular do cristianismo, arrebatasse fiéis ao redor do globo, com sua ênfase no pecado e na redenção da própria humanidade.

O fato da alma ser uma espécie de segredo aos olhos dos próprios homens, que só poderiam então ver e ter seu corpo visto, um mero reflexo do espírito, gerou uma doutrina de desapego ao corpo e uma importância do espírito: Somente Deus pode ver a alma, e devemos mantê-la imaculada, com determinado tipo de comportamento.

Mas nem sempre foi assim; Nietzsche, por exemplo, acreditava que corpo e alma eram a mesma coisa, e não acreditava nesta separação. Os gregos, quando queriam desonrar um inimigo, destruíam sua face, para que sua alma vagasse desfigurada e sem identidade no Hades. Para eles, então, a imagem do corpo seria a mesma da alma, algo diverso da tradição judaico-cristã.

O fabuloso romance de Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray, trata basicamente deste tema, mostrando um jovem de rara beleza que após ganhar uma herança, vai morar na Londres do século XIX. Lá, ele conhece o pintor Basil Hallward, que impressionado por sua beleza, pinta seu retrato. Quase ao mesmo tempo, ele conhece o Lorde Henry Wotton, que prega um estilo de vida que valoriza o prazer ao máximo, independente mesmo da ética e da moral.

Influenciado por sua nova amizade, Dorian começa uma vida de devassidão e pecados, sempre em busca do prazer extremo. Ele manifesta o desejo de que seu retrato fique marcado pelos seus atos, enquanto seu corpo e rosto permaneçam intocados pelo tempo. De alguma forma, seu desejo se realiza, e ele passa a viver deslocado de seus próximos, que envelhecem como pessoas normais. Enquanto isso, seu retrato, reflexo de sua alma, fica cada vez mais monstruoso.

O filme é extremamente fiel ao único romance publicado por Wilde, e possui uma beleza extrema, um detalhismo e uma proporção únicas. Assim, podemos refletir sobre o espírito das obras de arte: o filósofo Walter Benjamin fala sobre a aura das obras únicas e da perda deste espírito nas obras técnicas, reprodutíveis, como o cinema e a fotografia. Mas tal como o retrato possuído, o filme também parece tomado por forças negativas: A grande interpretação do jovem Dorian, criada por Ben Barnes, que com sutileza extrema realça os detalhes deste jovem demônio, aliada à atmosfera do filme, catalisa essa sensação.

O Lord Henry Wotton, interpretado pelo ganhador do Oscar deste ano Colin Firth, também compõe bem com o primor quase diabólico do filme. É interessante como podemos ser afetados por um bom filme, ou livro, ou mesmo um quadro: Até que ponto as coisas também não tem alma?

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