domingo, 29 de abril de 2018

ECONOMIA CHINA

Economia da China se prepara para solavancos

A China também se beneficiou com um dólar mais fraco desde o início de 2017 e a consequente valorização do yuan (Foto: Pixabay)

Há alguns anos Wuhan, uma cidade às margens do rio Yangtze, era um reflexo dos problemas econômicos da China. As autoridades locais perderam o controle do endividamento das contas públicas. Um funcionário local foi responsável pela construção de uma série de projetos arquitetônicos grandiosos. Um parque temático inspirado na história do cinema, construído como um ponto de atração turística, fechou devido ao fracasso de público. Os novos imóveis demoraram quase dez anos para serem vendidos.

Hoje, a cidade de 11 milhões de habitantes é um símbolo da resistência da China. A economia cresceu, apesar do controle mais rigoroso do governo na dívida pública. As cinco linhas de metrô recém-construídas ou ampliadas nos últimos dois anos ficam lotadas na hora do rush. O governo está investindo na produção de semicondutores, em pesquisas no campo da biotecnologia e no desenvolvimento de empresas de segurança na internet.

A economia da China, assim como a de Wuhan, recuperou-se da crise no final de 2015, quando o país enfrentou uma queda no mercado de ações, uma grande saída de capitais no mercado financeiro e um acúmulo de dívidas em um ritmo alarmante. Mas os números divulgados em 17 de abril mostraram um crescimento de 6,8% no primeiro trimestre de 2018, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Em termos nominais, o crescimento foi superior a 10%. A proporção da dívida pública em relação ao PIB se estabilizou, um sinal da diminuição do risco de uma crise financeira.

A recuperação econômica da China é resultado de três fatores. Primeiro, após um longo período de excesso de produção de aço e carvão, a pressão do governo para fechar algumas fábricas limitou a produção e elevou os preços. Com o objetivo de reduzir a oferta em um mercado imobiliário estagnado, os governos locais compraram milhões de imóveis e os deram para a população de baixa renda.

No setor financeiro, as agências reguladoras adotaram medidas mais severas no controle de empréstimos oferecidos a empresas sem garantia de ativos registrados em seu balanço patrimonial e a pessoas extremamente endividadas, como incorporadores e corretores de imóveis. Segundo Wang Tao do banco UBS, essas medidas deram mais confiança aos investidores. As ações de empresas chinesas listadas na Bolsa de Valores de Hong Kong tiveram um aumento de um terço nos últimos dois anos. O governo também ajudou a equilibrar financeiramente empresas em dificuldades, como no caso da siderúrgica de Wuhab, que se fundiu com uma empresa mais sólida de Xangai, em 2016.

Em segundo lugar, a economia atingiu um nível de maturidade, que permite desacelerar o crescimento econômico à medida que o país enriquece. Ao mesmo tempo, as mudanças estruturais estabilizaram o crescimento. Por sua vez, o aumento da população em idade ativa no mercado de trabalho em 2011 reequilibrou a economia. A dependência excessiva em investimentos está sendo substituída pelo consumo. E o setor de serviços agora é responsável por mais da metade do PIB, um aumento de um terço em comparação há 20 anos.

Além disso, alguns grandes investimentos da década passada, como o transporte ferroviário de alta velocidade em áreas densamente povoadas, estão dando um retorno financeiro. De acordo com Qin Zunwen, um economista de um órgão do governo de Wuhan, o aumento da dívida local justifica-se em razão da construção de uma série de projetos importantes de infraestrutura, como novas linhas de metrô, pontes no rio Yangtze e autoestradas.

Por fim, o fator sorte contribuiu para a recuperação econômica da China. A economia forte dos Estados Unidos e da Europa estimulou o crescimento das empresas chinesas. Depois de um declínio em 2016, as exportações se recuperaram. O aumento nos preços globais das commodities deu um novo impulso às empresas de mineração e de produção de metais, o que lhes permitiu pagar suas dívidas. A China também se beneficiou com um dólar mais fraco desde o início de 2017 e a consequente valorização do yuan.

No entanto, o cenário político e econômico indica um período de mais turbulência. O anúncio do aumento das tarifas de 25% na importação de aço e de 10% na de alumínio pelo governo dos EUA teve uma repercussão negativa na política do governo. Com a justificativa que as sobretaxas americanas sobre o aço e o alumínio causam sérios danos aos seus interesses, o governo chinês anunciou um aumento tarifário de diversos produtos importados dos EUA. Embora as exportações para os EUA representem apenas uma pequena fração do PIB da China, uma guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo poderia ser desastrosa para as cadeias de suprimentos.

As medidas de controle da dívida pública também podem prejudicar o crescimento econômico. No ano passado, as agências reguladoras concentraram-se no sistema financeiro restringindo os empréstimos para a compra de títulos. Este ano, o foco direcionou-se para o financiamento de obras do governo, o que pode ter um impacto ainda mais direto na economia.

Durante os últimos dez anos, a liderança política da China aumentou os investimentos sempre que havia uma desaceleração da economia além da zona de conforto. Mas o presidenteXi Jinping costuma dizer que a qualidade do crescimento é mais importante do que a quantidade. As autoridades de Wuhan querem seguir a opinião do presidente Jinping. Em reuniões recentes, elas destacaram a importância de fomentar a inovação, de preservar o meio ambiente e de controlar a dívida pública. Resta saber se essa sintonia com o governo central se manterá no momento em que o crescimento for reduzido.The Economist

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