domingo, 22 de abril de 2018

NOVO LIVRO

Livro analisa fascismo sob perspectiva histórica

Apesar do cuidado em evitar a hipérbole, Albright não poupa críticas mordazes a Trump (Foto: Reprodução/Amazon)

Em cada coração humano existe um desejo inesgotável de liberdade, “ou pelo menos é o que os democratas gostam de pensar”, escreveu Madeleine Albright em Fascism: A Warning, um livro sobre o caminho trilhado por alguns países em direção à tirania. Quando as pessoas estão amedrontadas, zangadas ou confusas, observou Albright, elas abdicam de sua liberdade, ou da liberdade de outros, atraídas pela promessa de ordem de líderes carismáticos. Em momentos de incerteza, muitos preferem que alguém diga que rumo devem seguir.

Seu livro é dedicado às vítimas do fascismo, mas também a todos que o combatem. No momento em que a pergunta “É assim que começa?” assusta as democracias ocidentais, Albright escreve com rara autoridade sobre o tema. Ela não é apenas uma estadista respeitada, ex-embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, e ex-secretária do Departamento de Estado de 1997 a 2001. Albright foi uma vítima do fascismo como tantas outras a quem dedica o livro.

Em 1939, quando os nazistas invadiram a Tchecoslováquia, sua família exilou-se em Londres. No final da guerra, seu pai retomou seu cargo no serviço diplomático tcheco e a vida voltou ao normal. Após a guerra, em 1948, o país foi ocupado pelos comunistas e, desta vez, a família partiu para um exílio permanente nos EUA.

Em outubro do ano 2000, na época em que era secretária de Estado do governo Bill Clinton, Albright assistiu a um espetáculo de dança de 100 mil crianças e adultos em um estádio em Pyongyang ao lado de Kim Jong-Il. O ditador norte-coreano era um homem baixo, bem informado, cordial e esperto. Ele lhe disse que organizara todo o programa e supervisionara a coreografia do espetáculo de dança. O comentário a fez pensar que só o exercício de um forte controle autocrático conseguiria anular a identidade de milhares de pessoas em um único movimento de perfeita sintonia.

Em um trecho do livro ela descreve um seminário com alunos de seu curso de relações internacionais na Universidade de Georgetown, no qual pediu que definissem o significado de fascismo. Disse aos alunos que o fascismo usava diferentes disfarces ideológicos, às vezes com um discurso de ditadura do proletariado, em outros os conceitos de nação, raça e religião prevaleciam sobre os valores individuais. É um governo autocrático centralizado na figura de um ditador, que está disposto a usar todos os meios, inclusive a violência, para exercer o poder, observou.

Hoje, na visão de Albright, só a Coreia do Norte, com seu ultranacionalismo e desprezo pelos direitos humanos, é um exemplo de regime fascista. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, não é um fascista, porque ainda não sentiu necessidade de assumir um poder mais ditatorial.

Além da exposição clara e perspicaz de sua concepção de fascismo, Albright surpreende o leitor com seu estilo elegante de escrita, assim como por sua sabedoria em relação à natureza humana. Sem jargão geopolítico, sua narrativa é entremeada por observações inteligentes sobre as emoções que resultam em decisões políticas inadequadas ou perigosas.

Em seu primeiro encontro com Putin, ele admitiu que o Muro de Berlim seria derrubado algum dia, porém lamentou a pressa caótica da saída dos soviéticos da Alemanha Oriental. Ele “sentia-se envergonhado com o comportamento de seus conterrâneos e queria restaurar a grandeza de seu país”, escreveu Albright. Um homem orgulhoso é capaz de assumir atitudes perigosas para recuperar a honra, acrescentou.

As livrarias têm inúmeros livros que descrevem os caminhos que conduzem a um regime autocrático. Com títulos como How Democracies Die ou Trumpocracy, em geral concentram-se no presidente Trump. Fascism: A Warning tem uma abordagem mais abrangente. Em capítulos com menção a fatos históricos, Albright descreve táticas despóticas com ecos atuais, como, por exemplo, a promessa de Benito Mussolini de “drenar o pântano”, com a demissão de funcionários públicos, uma frase repetida na campanha eleitoral de Trump com referência a Washington.

Apesar do cuidado em evitar a hipérbole, Albright não poupa críticas mordazes a Trump, a quem chama de o primeiro “presidente antidemocrático” moderno dos EUA, com instintos de ditador. Em outra época, ela teria certeza de que esses impulsos ditatoriais seriam reprimidos pelas instituições democráticas americanas: “Nunca pensei que, aos 80 anos, começaria a ter dúvidas”.The Economist

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