Diários da presidência - Prazo de validade vencido...

Terceiro volume do livro de FHC (Foto: Divulgação)

“O Brasil perdeu o rumo. Estamos numa pinguela e se ela quebrar vamos cair n’água”. A afirmação de que o país atravessa a forte turbulência de um rio de crise numa pequena ponte de madeira foi feita por Fernando Henrique Cardoso durante o lançamento do terceiro volume de “Diários da Presidência” em entrevista à jornalista Miriam Leitão em noite de autógrafos na Livraria da Travessa, no Leblon, na zona Sul do Rio.

(Foto: Claudio Carneiro)

Esta nova obra – a terceira de um total previsto para quatro – abrange os anos de 99 e 2000 e traz a coletânea de gravações ainda em cassete de depoimentos do então presidente – revelando suas dúvidas, suas queixas e alguns segredos palacianos de quem ocupou o Planalto por oito anos. O segundo ano deste biênio, segundo FHC, foi o melhor momento de seu segundo mandato. Críticas aos jornalões, por exemplo, marcam a nova edição.

Além da entrevista com a jornalista, um simpático ex-presidente respondeu ainda a perguntas da plateia. Numa delas, destacou que o país perdeu a vigência efetiva (no sentido de influência e supremacia) da América Latina. “Devemos saber onde atuar no novo jogo global. Uma relação mais estreita com o México – [isolado que foi por Donald Trump] – e os demais países do Pacífico seria estratégica”. Sobre nosso potencial econômico, FHC chegou a arrancar gargalhadas ao dizer “quase entregamos a carne. É inacreditável”. E destacou: “é preciso que alguém inspire e dê rumo ao país”. E, pelo que deixou nas entrelinhas, esse alguém não teria o perfil de Michel Temer.

Críticas a Lula e a Donald Trump

Em outra resposta, Fernando Henrique aproveitou para alfinetar o governo petista: “Nunca fui pela privatização da Petrobras ou do Banco do Brasil mas fui a favor da quebra do monopólio estatal, o que é diferente. O erro maior foi usar a Petrobras para fins políticos e o uso demagógico do pré-sal pelo Governo Lula que buscou monopolizar o uso desta reserva estratégica”.

Pau que dá em Lula também bate em Trump. FHC abordou a política internacional adotada pelo topetudo presidente norte-americano: “Ele tenta mostrar à China que não é tão ruim quanto parece. A Coreia do Norte tem bomba atômica e pode usar. É preciso refletir sobre o futuro. Não são poucas, ao mesmo tempo em que são preocupantes, as mudanças de poder na nova ordem mundial. Henry Kissinger tratou disso em “Global Order” (A Ordem Mundial) e em “On China”, lembrou.

Após os aplausos no encerramento do depoimento, FHC deixou a livraria. Solícito, parecia ignorar um discreto serviço de segurança – conferido a ex-presidentes – que não o impediu de distribuir abraços e selfies, sempre acompanhado – também de forma sóbria – pela nova esposa, Patrícia Kundrát.Claudio Carneiro

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