sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

PRECONCEITO NA POLÍTICA

Líderes que superaram o preconceito e triunfaram na política

Ambos superaram o preconceito e ascenderam à posição máxima da política (Foto: Wikimedia)

Como o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, o lugar de Barack Obama na história está garantido. Nos poucos dias desde que deixou a Casa Branca, os comentários o exaltam como “um dos maiores presidentes de todos os tempos” e “um ser humano único”. Mas para entender melhor sua dimensão política é interessante comparar sua história de vida com a de outro político, que, há mais de um século, também superou o preconceito social e ascendeu à posição máxima da ambição política: Benjamin Disraeli.

Como Obama, Disraeli foi um fenômeno sui generis. Obama foi um elemento à parte na sociedade americana por causa do pai queniano. Disraeli, por sua vez, apesar de ter sido batizado na Igreja Anglicana aos 12 anos, era judeu. Em uma época em que os judeus sofriam perseguições por serem os “assassinos de Cristo” e não podiam ser eleitos para o Parlamento, o preconceito racial o teria desencorajado a seguir uma carreira política. Porém, determinado, concorreu quatro vezes a um cargo na Câmara dos Comuns. Seus discursos eram interrompidos com frequência por gritos de “Shylock!”, uma alusão ao judeu agiota da peça Mercador de Veneza, de Shakespeare.

Por fim, foi eleito deputado pelo condado de Maidstone, em Kent, na quinta tentativa. Disraeli atingiu o auge de sua carreira ao ser nomeado primeiro-ministro duas vezes, em 1868 e 1874, pelo Partido Conservador. Foi um êxito pessoal impressionante que equivale, ou talvez supere, as conquistas de Obama em termos de iniciativa, talento e obstinação.

Obama também foi vítima de preconceito racial; seus inimigos tentaram disseminar a desconfiança a respeito de sua cidadania americana, com afirmações falsas de que ele teria nascido no Quênia e não no Havaí. As críticas a ele e a esposa, Michelle, foram muitas vezes expressas em linguagem racista. Mas Obama tinha o apoio da intelectualidade liberal do país, ao contrário de Disraeli. Sua caricatura como um “malabarista judeu”, que dominava a nobreza vitoriana, foi publicada na revista satírica Punch (Thomas Carlyle), “com a iniciativa de um charlatão” (Anthony Trollope).

Mas os dois políticos têm um ponto em comum: mesmo diante da agressão racial, eles nunca se vingaram das ofensas sofridas, porque sabiam que ficariam expostos a julgamentos ou generalizações desagradáveis.

Certa vez Disraeli recomendou o nome de Carlyle para receber uma das honrarias concedidas pela rainha, um ato gentil que acalmou as críticas de Carlyle. Mas logo ele retomou o espírito combativo ao dizer que Disraeli era “um velho judeu maldito cujo valor não se comparava nem mesmo a um bacon frio”.

Obama exibiu a mesma dignidade elegante ao receber o novo presidente, um homem que passou anos à frente da campanha que questionou a validade da certidão de nascimento de Obama, com uma atitude de “intolerância fria e implacável”, como diria Evelyn Waugh. Imperturbável, sempre conciliatório e sofisticado em suas piadas nos Correspondents’ Dinners na Casa Branca, Obama fugiu ao estereótipo do homem negro revoltado com a sociedade branca opressora.The Economist

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