domingo, 27 de agosto de 2017

COREIA DO NORTE

Como lutar uma guerra com soldados desnutridos?

Norte-coreanos estão insatisfeitos com o foco de Kim na produção de armas (Foto: KCNA)

A Coreia do Norte vai desenvolver um míssil balístico mais potente do que os utilizados em lançamentos recentes. A informação foi divulgada pela agência de notícias estatal do país, a KCNA, que publicou fotos de Kim Jong-un visitando um centro militar e disse que o líder norte-coreano ordenou a produção de mais motores propulsores de foguetes e ogivas nucleares.

O anúncio, porém, não teve o mesmo impacto que os anteriores entre os 25 milhões de habitantes do país. Isso porque eles vêm questionando o investimento pesado do governo em armas, enquanto a população sofre com a maior seca em 16 anos e com os efeitos das sanções impostas em retaliação ao programa nuclear do país.

Este ano, a seca devastou colheitas e deixou o país incapaz de alimentar a população, incluindo soldados do exército tão exaltado pelo regime. Desde que Kim chegou ao poder, o padrão de vida da elite norte-coreana aumentou, enquanto a vasta camada mais pobre do país passou a sofrer com a estiagem, a falta de alimentos e o desemprego gerado pelas sanções econômicas.

Segundo o Daily NK, site comandado por desertores do regime, é nítido o descontentamento da população em relação ao foco do governo em produção de armas. Segundo o site, alguns norte-coreanos se sentem “desiludidos com o regime de Kim Jong-un, que gasta mais dinheiro desenvolvendo mísseis do que melhorando a vida da população”.

“Todos estão cientes de que sempre que o regime lança um míssil, sanções econômicas serão impostas. Não há nada para celebrar para os cidadãos comuns. No início, os residentes do país tinham orgulho do regime abertamente se opor aos EUA, com mísseis e o desenvolvimento de um programa nuclear, mas hoje o sentimento antiamericano enfraqueceu e o respeito pelo regime despencou”, disse ao Daily NK um morador da Coreia do Norte que não quis se identificar.

As mais recentes sanções anunciadas contra a Coreia do Norte prometem cortar em um terço a receita de R$ 3 bilhões anuais do país provenientes das exportações. Tal fato ameaça levar mais norte-coreanos à situação de miséria, pois ameaçam inúmeros postos de emprego do setor, incluindo na mina de Musan, a maior produtora de minério de ferro do país. Além disso, haverá sanções à exportação de frutos do mar, o que vai afetar pescadores cujo sustento depende da venda de peixes para a China.

A escassez de alimentos também ameaça as promessas de guerra de Kim. É o que diz Jiro Ishimaru, documentarista japonês que tem contatos com uma rede de jornalistas norte-coreanos que enviam informações através de celulares contrabandeados, algo extremamente arriscado na Coreia do Norte.

“Há muitos soldados para alimentar. E a corrupção impera. Depois que os oficiais superiores pegam sua parte de provisões para vender no mercado privado em busca de lucro, não sobra nada para os militares de baixa patente”, diz Ishimaru, que na semana passada testemunhou soldados norte-coreanos claramente desnutridos lavando seus uniformes no rio Yalu, próximo à fronteira com a China.The Guardian

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