segunda-feira, 28 de agosto de 2017

PARTIDOS ISLÂMICOS

Repressão generalizada ao islã político é um erro

Eleitor tunisiano participa das eleições de 2014 no país (Foto: Twitter)

Há menos de uma década, os partidos islâmicos eram uma força quase irresistível no mundo árabe. À medida que ditadores eram depostos na Primavera Árabe, em 2011, esses grupos, em especial a Irmandade Muçulmana, ganharam influência e território.

Mas no combalido mundo árabe atual, prevalece a ideia de que islâmicos são incapazes de desempenhar um papel político democrático. Por conta disso, islâmicos moderados vêm sendo perseguidos por regimes reacionários, coagidos por jihadistas violentos e vistos com desconfiança até mesmo por seus próprios eleitores. Muitos membros de partidos islâmicos hoje estão presos ou foram exilados de seus países.

Enquanto isso, o principal entusiasta do islã político, o Catar sofre um isolamento econômico e diplomático promovido por vizinhos do Golfo Pérsico, com o apoio do presidente americano Donald Trump. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Egito exortam o Ocidente a taxar a Irmandade Muçulmana como um grupo terrorista.

Quando jihadistas matam – como fizeram semana passada na Espanha – se torna tentador considerar todos os islâmicos que buscam poder político como uma ameaça. Porém, a repressão generalizada aos islâmicos é a pior resposta possível. No fim de tudo, ela somente levará a mais ressentimento, mais turbulência e mais terrorismo.

Existem vários tipos de grupos islâmicos, desde o tunisiano Ennahda, que se classifica como “democratas muçulmanos”, ao Hamas, que costumava responder ao cerceamento da Palestina lançando foguetes contra Israel. Aqueles que buscam extinguir todos, sem distinção, cometem três erros: eles acreditam que a solução para tudo depende de homens fortes; afirmam que islâmicos são todos iguais; e que são primordialmente antidemocráticos.

Embora haja jihadistas que são dissidentes de partidos políticos islâmicos, como Ayman al-Zawahiri, líder da Al Qaeda exilado da Irmandade Muçulmana, juntar todos esses partidos em um só grupo é algo simplista.

Jihadistas violentos bebem de muitas fontes diferentes, o que inclui o salafismo puritano da Arábia Saudita, que compete com a Irmandade Muçulmana. Os jihadistas odeiam os islâmicos moderados porque estes têm como foco a compaixão, os serviços sociais e pleitos eleitorais, ao passo que os jihadistas consideram uma afronta toda e qualquer lei criada pelos seres humanos, em vez de Deus. Tratar todos os islâmicos da mesma maneira é como dizer que sociais democratas são iguais aos comunistas da Brigada Vermelha italiana, apenas porque ambos leram Karl Max.

Um exemplo mais esperançoso vem da Tunísia, berço da Primavera Árabe. O Ennahda conseguiu evitar o caos visto em outros países durante a Primavera Árabe ao ter o bom senso de compartilhar o poder com outros grupos laicos do país. Isso porque o partido tem consciência de que a transição para uma democracia ainda frágil requer amplo consenso político. Coisa parecida ocorreu no Marrocos, também na Primavera Árabe, quando o rei Mohammed VI aceitou implementar uma reforma política na qual ele cedeu parte de seu poder ao parlamento e permitiu que um primeiro-ministro islâmico liderasse uma coalizão partidária.

Opressão e desgoverno lançaram as bases para a crise atual no mundo árabe, algo que não será erradicado tão cedo. Porém, a autocracia é um beco sem saída. A única solução é a abertura gradual dos governos e economias árabes. Os partidos islâmicos são pragmáticos e não podem ser ignorados. Em vez de tentar esmagá-los, o que somente os uniria e radicalizaria, o foco deveria ser trabalhar junto aos partidos islâmicos, demandando reformas e exortando o banimento dos mais radicais. Desta forma, eles serviriam como uma barricada contra o jihadismo, e não um caminho.The Economist

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